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painfulQuerido M.A.,

escrevo-te esta missiva usando a  segunda pessoa do singular, pois acredito que já são poucos os que, no Brasil, usam adequadamente o pronome tu, que tem um ar de tempos passados, senhoriais. Peço-te que releves tal intimidade, dado o nosso longo tempo de convivência. Também é necessário que entendas que escolhi tal forma de tratamento e outros recursos da escrita dos tempos antigos pois assim tenho mais chances de que um possível violador de correspondências nada compreenda do que vou te narrar. Esta carta  é secreta e assim deve permanecer. Explicar-te-ei agora porque corro sérios riscos ao me ligar a ti.

O objetivo desta é informar-te que a tristeza ultimamente tem me consumido a alma. E é por tua causa que meu coração chora. Aqui, na terra onde nascemos – eu e tu – há uma nova moda: a facilidade instantânea e a todo custo. Por causa dela instituiu-se uma lei que agora rege a vida de boa parte de nossos compatriotas: a que determina que todo esforço intelectual é crime. Estender a mão em direção a um dicionário cansa sobremaneira os meus contemporâneos. Ler um livro como os teus tornou-se tarefa hercúlea. Entender tuas palavras exige demais das novas gerações.

Assim, querido amigo, é com com extremo pesar que te informo que és persona non grata em muitos círculos. Teus enormes parágrafos, repletos de ironia, metáforas e assemelhados, sobrecarregam os jovens cérebros treinados para tuitar (algo mais ou menos como um exercício permanente de elaborar de forma banal aquele micro conto do Hemingway, sendo que em vez de contar uma história densa, informa-se apenas o óbvio de um cotidiano que a ninguém interessa).

Pesa-me, sobremaneira, informar-te que estás ultrapassado em todos os aspectos. Usas pontuação corretamente, escolhes palavras rebuscadas, constróis parágrafos longos (com apostos, ó criminoso!). Por essas e outras, o zeloso Estado brasileiro, atento às necessidades dos estudantes brasileiros, financia uma brilhante intelectual que reescreverá, em linguagem moderna e acessível, estes teus textos ininteligíveis e bizarros. E dá-te, por feliz: muito pior ocorreu com o Lobato e  Twain, pouco tempo atrás!

Usas expressões como sagaz, quiçá ou gárrula! Que queres com isto? Causar um trauma nas jovens mentes preparadas apenas para postar after sex selfies? Um dia eu te explico do que se trata, mas não agora: és um senhor do século dezenove e não estás pronto para saber detalhes sobre como a exibição da intimidade em altas vozes e – literalmente – para o planeta inteiro tornou-se uma das marcas desse novo tempo.

Já não tens mais lugar neste país, onde aquela bela flor do Lácio jaz ressecada, sepultada em um cemitério denominado de “Redes Sociais”.

Assim, caro amigo, esta missiva serve para te informar de que nossa amizade, a partir de hoje, será secreta. Guardo-te ainda, em estremecimentos d´alma, mas já não posso correr o risco de ser excluída da sociedade por tua causa. Dizer publicamente que te amo seria suicídio: os estultos julgar-me-iam  pretensiosa, esnobe e boçal; eu perderia amizades, desgostosas com meu desrespeito às correntes formas de expressão que tudo permitem, inclusive o assassinato da gramática (psiu, falemos baixo: isso agora é palavrão).

Certa estou que não me queres no ostracismo. Sei que desejas o meu bem. Assim, despeço-me de ti, mas antes lego-te uma lista de palavras que deves banir de teus livros. Estão organizadas em ordem alfabética a fim de combinar com a facilidade que é a tônica da Era dos Obtusos, que é como denomino os tempos atuais.

Sê feliz em tua estante empoeirada.

Sempre tua,

Soninha

Index 

A de alforria, abacamartado, alcova, arcádia, albardeiro, arcaísmos, alienista

B de bacamarte, bufão,  botica, broquel

C de crisálidas, casmurro, coxia, cáspite, Carola, Catete, Cosme Velho, cambraia, chilra e carpideiras

D de desenlace, derradeira, disparate, dadival, Dante

E de escritor, escrivão, êmulo, espúrio, erudito, estupefato e epístola

F de falenas, farfalhar, falaço, fúlvido, furtadelas e folgazão

G de garrida, gárrula, gasconada, gongorismo

H de hombridade, homérico, homúnculo

I de ironia, inexorabilidade, imarcescíveis, imprecação

J de jazigo, jimbo, jubiloso

L de literatura, livros, leitura, luminescência, longanimidade, laborioso

M de marmota, miliciano, memórias, manuscritos, míngua, mantilha, mulato, metáfora, mofino

N de niilismo, negligenciado, nosocômio

O de ostracismo, olvido, obreia, óbolo

P de póstumas, petalógica, periódicos, patranha, pusilânime, Platão, páginas, poesia e pastiche

Q de quiçá, queixada, quejando, queixume

R de relíquias, rotundo,

S de sagaz, sequazes, sátira, Schopenhauer, senhorinhas

T de tipógrafo, traslado, taciturno, tertúlias

U de úlcera, ufanista, ulterior, úbere

V de vivenda, versejar, vertiginoso, vestidura, véu, vigília, Virgílio, vate

X de xalma, xeleléu, xendengue

Z de zagunchada, zagaia, zambaio e zambaneira

 

ΛΙΘΟΣ

vincentghetto

J’me sens palote,
Je me sens lote
Les enfants me nettoient
Des inconnus me sortent
A croire quand je me vois
Que je suis déjà morte

(Zaz, Si Je Perds) 

Se você acorda e sua sanidade escorre entre os dedos; se sua alma se debate entre tormentos e delírios, o que devo dizer? Qual a palavra exata para restaurar o que se perdeu?

Entre papéis e rotina, o dia me surpreende investigando em que canto escuro você escondeu o que me sempre foi familiar e seguro. O gemido fere meus ouvidos, a cabeça sob o travesseiro consome o que me resta de esperança e me encolho de medo do seu monstro interno que vejo me espreitar, implacável. O que é esse grito lancinante que atravessa as paredes e me rouba a luz? E os ossos que querem se despregar da carne? Não, não desista ainda.

Mãos torcidas, longas horas de sono, dor de viver, cansaço de vestir essa carcaça que oprime. Não fuja, não. Eu ainda estou aqui. Fixada nos seus olhos afogados investigo o que de você resta sob esses escombros. Não desista.

Inquieta mente que cria abismos, traiçoeira mente que entre delírios e tintas se locupleta em sensações de prazer e dor, desespero e ardência. Uma fome infinita de sentir, de preencher a  lacuna onipresente. Há algo de voraz em você; algo de devorador, que estende seus dentes pontiagudos para o nosso cotidiano. Tenho medo, sabe, mas ainda estou aqui, segurando a sua mão que treme.

Em  meio a essa tragédia surge a centelha intensa, a vontade insana, a obsessão violenta. Febre e volúpia, desejos, ardência e alucinação – leio tudo isso na sua alma inquieta. Dê-me as tintas, os pincéis e as telas! Estendo os pincéis quase em pânico, temerosa da avalanche, da raiva mal contida e do fluxo que arrebata. Mas não me afasto. Estou aqui. Ainda.

Três prótons e três elétrons embalados em um cobertor prateado entram por sua boca, acumulam-se lentamente no seu sangue e estabilizam o que extrapolou a linha fina do que se chama razão. Eu espero. Tenha paciência: estou aqui.

Mergulho nessa turbulência assustadora e seguro suas mãos contra meu rosto. Estou aqui: fique mais um pouco.

Os dias se acumulam e estou tão cansada. De todas as expectativas só me resta uma: a que talvez este sonho mau um dia chegue ao fim e você, afinal, possa emergir para o sol. Neste dia, entre os dourados sons de meu amor, naquele lugar incrível que sonhamos, haverá calma, suavidade, serenidade e meu coração que aguarda, ansioso, pela hora em que afinal poderemos de novo olhar nos olhos um do outro. Sem sombras, sem medo.

Estou aqui. Não vá ainda.

Estilhaços

ange-sorrow-weeping-whiteQuando finalmente Hannalu se deu a ele, era uma tarde de chuvas que encharcavam o chão. Ela havia relutado muito e ele sabia. Não o amava. Havia consentido em estar com ele. Mas estava ressecada por dentro, um coração enrijecido, sombreado, coberto de poeira e rachaduras.

Mas bastou que Bingano, emocionado, visivelmente tenso, encostasse os lábios na boca quase inerte de Hannalu para que algo nela revivesse. Beijo de chuva, macio. Ela reagiu rápido: colou a boca na dele, sôfrega, apressada, bebendo saliva, batendo dentes.

Ele não pensou sobre aquela reação inesperada. E foi em frente. O sexo foi como nadar entre águas-vivas sem saber de seu veneno. Mas ela sabia e, espreitando pelos cílios entreabertos, via os olhos dele bem fechados: preso entre o prazer e o amor profundo – concluiu.

Prazer de sal e de tempestade, de soluços ocultos e de horrores compartilhados.

Muitas horas depois, ela acordou. Ainda sem palavras, foi até a janela e sentou-se – as longas pernas soltas no ar. Pela primeira vez Bingano a viu sem amarras nos cabelos, agora espalhados pelas costas.

Nos olhos úmidos ele leu o medo. Ela se recolhera para algum lugar – inalcançável, atormentada. Aproximou-se e, sem nada dizer, apenas afastou os cabelos e depôs um beijo de amor sobre uma das asas de vidro que ela trazia presas às costas.

59 minutos

Era noite ainda quando ela lhe disse, quase envergonhada, que suas asas continham rachaduras. Ele se espantou, quis conferir. Ela não permitiu. Mas às vezes a via, cuidadosamente retocando as penas transparentes. Unia-as e passava algo que parecia pó de vidro e cola incolor. E lá estavam elas, novamente, parecendo novas.

Somente muitos meses depois, quando as flores coloriram a jardineira do quarto, ela finalmente lhe mostrou as asas partidas. Disse que um dia, ainda muito jovem, havia permitido a um sem-nome que lhe tocasse as asas perfeitas. Com a voz rouca, Hannalu contou como o sem-nome estendeu as unhas e arrancou, sem qualquer piedade, as penas mais belas.

- Foi minha culpa – Ela disse, depois de uma pausa.

- Algo malévolo acontece comigo. Quando nasci, surgiu também a maldição que me consome. De início, olham-me como se fosse estrela, depois descobrem apenas noite escura. E então, devagar, cada um deles, atingido por medo e vertigem, quebra-me as asas e puxa-me para o lodo.

Ao fazer isso, deixou cair a roupa e mostrou-lhe seu verdadeiro corpo. Sem retoques, era marcado por chagas – algumas secas; outras úmidas ainda. As asas eram um mosaico.

Rapidamente ela se recompôs. Muitos pós e cremes, belas roupas e maquiagem, parecia a mesma Hannalu de sempre, com sua beleza de sol e a risada alta.

Bingano mordeu o lábio inferior e prometeu a si mesmo que jamais lhe quebraria as asas. Mesmo assim, poucos meses depois nasceu na sua alma uma vontade insana de ferir Hannalu. Não a queria com os lábios arrebentados ou os olhos roxos, mas tornou-se rotineiro um inconsciente prazer em fustigá-la usando palavras e gestos. E, se ela se encolhesse, o predador silencioso crescia dentro dele.

A primeira vez foi quando ela disse algo que o desagradou. Humilhou-a com uma resposta seca e dura que a deixou zonza. Repetiu a cena semanas depois e, desta vez, sua evidente maldade a deixou, primeiro surpresa, depois abestalhada. Meses depois, berrou até vê-la encolher-se até o chão, salpicada pelo sangue que brotava da boca de Bingano, misturado à saliva dele.

Bingano nem notava mais quando suas palavras caíam sobre Hannalu como bofetadas bem dadas, das certeiras, no meio da cara. Não via seu nariz partido, suas fraturas e o aumento de seus adesivos autodepreciativos. Numa única ocasião, quando notou dois deles, aconselhou, senhorial: “Você precisa aprender a se amar”. Hannalu suspirou, medrosa.

Ela, por sua vez, fez umas contas e decidiu ficar com aquele único minuto de cada hora em que ele sorria como antes. Hannalu deu de colecionar risos e boas memórias. Eram tão raros que foram guardados na caixa de pérolas. Os outros 59 minutos de cada hora ela pôs numa caixa de águas muito frias onde nadavam peixes ferozes e moluscos gosmentos.

Um silêncio se ergueu entre eles uma parede grossa. Ela ainda dizia que o amava, dava-lhe presentes e sorria para ele, mas aos poucos via nascer um medo terrível quando tinha de conversar com Bingano, mesmo sobre assuntos banais.

A instabilidade dele a aterrorizava. Temia o seu ódio, sua impaciência, a crueldade com que a dissecava. Tudo lhe dizia para fugir, mas ela estava cansada. Havia chegado a um ponto de sua vida em que não há mais volta – Bingano seria a última tentativa. E assim, abria a caixa de pérolas e olhava, uma a uma, as risadas juntos, os passeios e as noites e dias de amor em que – sempre, sempre – ele agia como antigamente, com ternura e atenções que ela jamais tivera antes.

Numa tarde de domingo, por um desentendimento vulgar, coisa sem importância, fustigou os animaizinhos que ela criara desde novinhos. Ela engoliu em seco.  Não satisfeito, atirou-lhe mais algumas dúzias de expressões carregadas de signos de desprezo. Por fim, descuidou-se e deixou cair a máscara que construíra. Ela se desgrudava da pele, revelando uma feiúra que Hannalu jamais vira.

Tomada de horror, ela nada disse. Recolheu-se no banheiro branco e catou do chão os estilhaços que lhe caíam das asas.

Na manhã seguinte, Bingano a encontrou deitada sob a cama. Respirava ainda, mas os olhos arregalados estavam vazios e a mente fugitiva.

Chamou-a com carinho. Depois com desespero. Só quando tomou-lhe o corpo nas mãos pôde sentir sua magreza extrema, a pele seca, os cabelos inteiramente brancos e os cotocos das asas pendurados.  Ela ganiu algo e se aquietou para sempre no peito dele, como um cachorro medroso.

Estilhaços

Ao contrário da morte do pai, Bingano não deixou a dor extravasar. Sua culpa era tão avassaladora que já nem pensava. Recolheu os pedaços de vidro das asas de Hannalu e atirou-os na mesma fogueira onde o corpo dela estava quase totalmente consumido. Viu-lhe as carnes e ossos sendo comidos pelas chamas, mastigados pelas labaredas alaranjadas.

Agora só lhe restava a ausência dela. Não havia mais o som da voz, nem a bagunça que o irritava. Não havia mais do que reclamar. Uma saudade e uma dor quase sem nome lhe abriram os braços.

Deu-se conta que sua vida vitoriosa era agora oca, sem significado. Reviu quantas vezes ela se orgulhara dos feitos dele, de suas inesgotáveis habilidades. Quem haveria de aplaudi-lo, abraçá-lo, rir com ele ou dele? Sua platéia morrera. E, ao olhar no jardim, viu que também sumiram as tais flores de esperança.

Foi então que uma sombra sorrateira se esgueirou por trás dele e o cobriu com o manto verde-musgo da solidão. Bingano caminhou até a janela e puxou o ferrolho enferrujado…

Para Chris.

the_eye_of_time_1949Acordei encharcado de Dali, Magritte e Kafka. Vivo duas vidas simultaneamente. Em uma delas, um povo festeja, embriagado por superficialidades, enquanto em outra um país é engolido por uma sucuri gigante, envolvente, que enrola seu corpo gosmento em torno de meus sonhos de ética.

Em uma das vidas, minha casa se incendeia. Grandes línguas de fogo destroem o lugar em que cresci; suas labaredas já consumiram a vizinhança e se aproximam de meu sofá. Em outra, meus amigos inundam minha timeline com receitas de brigadeiro gigante e fotos fofinhas de um mundo sorridente.

Em uma das vidas, minha mente voa livre, plena e poderosa. Na outra, vejo essa mente acostumada a pensar sem amarras acoplada a um corpo pesado, tetraplégico. Leis que eu não aprovo, dirigentes que não elegi, representantes distanciados do que desejo são os donos de meu corpo subjugado pelas regras desse coletivo indesejado.

Curioso, abro uma janela entre as vidas, tento construir uma ponte para uni-las. Em vão. Os amigos que sorriem, inocentes e doces, não enxergam o incêndio, a sucuri, minha angústia e minha mente que luta para se libertar do corpo paralisado.

Penso em soluções drásticas, que jamais implementarei, a fim de fazer os queridos enxergarem a  realidade da outra vida que só eu e alguns poucos percebem. Sonho com um evento cósmico que os acorde para a vida além da Matrix, onde a luz brilhante se converte em fog e cinzas, chuva ácida e ameaças.

Mas o que ouço quando tento? O coro ruidoso dos que me batem nos ombros com ar contristado: “Não se deixe levar pelo pessimismo. Essa outra vida que você enxerga não é tão  ameaçadora. Você usa lentes de aumento”. Colam-me rótulos viscosos: coxinha, reacionário, playboy, direita. Outros acreditam numa força invisível que tudo comanda e está em absoluto controle da imensa roda da vida. Duvido dessa força, até porque o descontrole geral me prova o contrário. O pacto social me esmaga. Estou mais para Lennon que para silly love songs.

Estarei eu errado? Começo a  duvidar de minha percepção. Quererei eu ser cego e feliz? Um dia, cansado desse paradoxo, arrancarei meus olhos e abdicarei de minha capacidade de ver as coisas sem olhos alheios? Até onde irei, equilibrado e solitário, nessa ponte que une dois mundos tão díspares que coexistem?

Talvez eu simplesmente me converta num broche de Dali, em que o olho que chora é cravejado de diamantes e beleza puramente material. Uma joia humana, obviamente muda, talhada para ser desejada e amada mesmo quando despeja no mundo o choro pétreo e brilhante que quase ninguém consegue ver.

(Sonia Zaghetto)

Alberto

albertoAlberto nasceu com asas invisíveis pregadas nas costas. Desde pequeno, o menino pássaro sabia que poderia voar. Sabia tudo de aves. Falcão, gavião, andorinha e beija-flor não tinham segredos para ele. Durante horas observava asas, apreciava vôos e acariciava penas. Há aqui uma ciência – pensava.

Alberto também amava as máquinas. Consertava tudo: máquina de costura, tear e câmera fotográfica. Às escondidas do pai dirigia loucamente a locomotiva que levava o café da fazenda para a cidade.

Em meio a árvores e ninhos, lá vai Alberto sentindo saudade dos céus. Olhava montanhas ao longe, imaginava a copa das árvores vistas de cima, sonhava com nuvens.

- Se até besouro voa, por que eu não posso voar?

- Porque gente não voa, oras.  Pessoas não têm asas! Responde a Maria, doceira de mão cheia, com sua lógica implacável.

– Pura bobagem, pensa Alberto. – É só uma questão de jeito.

Seus olhos de menino acompanham a fumaça que sobe do tacho onde Maria faz a geléia. O rolo esfumaçado escapa em direção ao céu.

- Um dia irei também… Um dia.

Os anos passaram. Um fiapo de barba começou a surgir no rosto de Alberto.

- Meu filho, você agora é rapaz. Vou mandá-lo estudar em Paris. Professores particulares ensinarão a você a rainha das ciências, o futuro da humanidade: a engenharia mecânica, disse o pai, todo sisudo.

O pai nem havia acabado de falar e a mente de Alberto já voava longe. Lembrava daquela tarde de primavera quando viu pela primeira vez um balão. Imenso, cheio de gás, balançava-se suavemente em meio ao parque de exposições. Olhos pregados nas cores incríveis daquele instrumento de voar, Alberto decidiu na hora: aquele era o seu destino.

Brasil foi o nome de seu primeiro balão. Pequenino e valente como o próprio Alberto. De repente, ali estava o céu. Lastro solto, sobe e segue. Mergulha no azul profundo. Afinal, o menino das asas invisíveis estava voando em algo que ele mesmo construíra. Abriu as narinas e sugou todo o ar que podia. Um vento forte revirou os cabelos de Alberto, o balão oscilou perigosamente. Ele sorriu.

- Não importa, estou em casa.

Muitos balões e dirigíveis depois, Alberto tornou-se perito na arte de voar. Já havia desabado sobre as torres do Trocadero e até sobre o jardim bem cuidado do Barão de Rotschild. Enquanto recolhia a lona do balão, após queda espetacular, uma princesa brasileira mandou-lhe uma cesta de frutos e doces. Dentro, um bilhete dizia “Rezo a Nossa Senhora para que lhe proteja, senhor Alberto”.

Numa tarde, foi arrastado pelo vento para o alto mar, em Mônaco. O mar agitado tentava alcançar o cesto do balão com suas garras feitas de onda. Raios e trovões rugiam para assustá-lo. Em vão: andar entre nuvens – mesmo as cinzentas – era o ambiente de Alberto.

Voava diante de reis e plebeus, duques, princesas e mendigos. E agora até ditava moda! Alguém achou incrível o modo como arrumava o chapéu para impedi-lo de ser levado pelo vento. No outro dia, os parisienses copiaram o estilo. O relógio de bolso era desconfortável? Alberto pediu uma adaptação e o atou ao pulso – moda que atravessou os séculos.

Alberto dominou a arte de controlar balões. E os balões – que conheciam as asas invisíveis de Alberto – o obedeciam sempre.

- Quero voar em torno dessa torre. E vou fazer isso com absoluto controle!

Fez!

O Prêmio oferecido por um certo Sr. Deutsch – 100 mil francos – foi distribuído alegremente entre operários e mendigos de Paris. Alberto não queria dinheiro. Para ele, bastava voar.

Até que um dia Alberto decidiu: chega de balões. Algo mais pesado que o ar poderá voar também. Desenhou dia e noite, mergulhou em palavras difíceis como aerodinâmica, deixou fluir a paixão pela velocidade, estudou o segredo dos motores. Construiu algo que era parecido com uma prateleira voadora. Testou, caiu, não funcionou, insistiu.

No outono, a prateleira – que tinha recebido o nome de 14 BIS – foi testada no campo da Bagatelle, em Paris. Alberto pedalou a geringonça, pôs força no embalo e, de repente a invenção, forrada de seda e feita com hastes de bambu, decolou. Voou 200 metros e pousou de novo.

Quem assistia ficou mudo de emoção. Depois daquele silêncio que durou alguns minutos, cartolas e chapéus foram atirados para o alto. Um grito coletivo de alegria escapou do peito da multidão assombrada: “O homem voa!!”. Alberto foi carregado em triunfo. Mocinhas piscavam os olhos para ele, rapazes o invejavam.

Logo, ele abandonou a prateleira voadora e criou um modelo novo. La Demoiselle – a libélula – era um avião-menina. Graciosa e pesando apenas 56 quilos, a Demoiselle flutuava sobre os céus de Paris, com suas asinhas delicadas.

demoiselle-transportingAlberto estava casado, enfim. Encontrara a alma gêmea naquele avião elegante que se tornou modelo para todos os demais aviões do mundo. Saía para passear e levava a Demoiselle no banco de trás do carro, para espanto de toda gente. E, quando queria, pousava-a suavemente no jardim do castelo dos amigos. O avião estacionado à porta era o auge da paixão pela arte de voar.  Paixão tão grande que ele jamais quis cobrar direitos autorais pelo uso da patente: todo homem deveria ter o direito de ter asas – mesmo que artificiais.

No Brasil, Alberto construiu uma casa de pássaro só para ele, empoleirada numa rocha íngreme. Mas algo começava a se partir no seu coração de menino: seu avião às vezes caía. E quando despencava lá do alto matava as pessoas e feria algo muito profundo no peito de Alberto. Ele não suportava a ideia de que pessoas perdessem a vida por causa de sua máquina de voar. Alberto começou a murchar.

Quando as guerras vieram e os aviões despejaram bombas sobre jardins e meninos, Alberto encolheu-se em sua casa encantada. Quando irmãos
passaram a usar seus lindos aviões para matar uns aos outros, a mente de Alberto se escondeu em um lugar muito escuro. Agora poucos se lembravam dele: aviadores mais jovens se destacavam e a invenção do avião foi dada a outros. Alberto não resistiu. Numa tarde de cinzas, abriu as asas invisíveis e partiu sem olhar para trás.

Se olhasse, veria a mim, que sonho com asas invisíveis. A mim, que te abraço nos longos vôos, quando o colchão das nuvens me espreita pela janela do avião. Ou quando ouço o ronco dos jatos da esquadrilha da fumaça e te reverencio, encharcada de orgulho. Ou simplesmente quando um vento sorrateiro me revira os cabelos num dia brilhante de verão e eu abro os braços, fingindo voar sobre ondas e casas, em um balão que divido contigo, meu Alberto.

Para Alex, com a minha gratidão e amor.

vincent e estrelas

Cartoon de Barbara Stok, na revista em quadrinhos ‘Vincent’

Eu quis construir  uma casa amarela para um dos meus amores morar. Afinal, ele era solitário e pintava com uma técnica inovadora: cortava um pedaço da alma, misturava a umas cores intensas, adicionava gotas de um amor profundo e sonhador. Misturava tudo em pinceladas grossas como lágrimas de um choro sentido. E ele, que sonhava com uma casa amarela, ganhou finalmente um lugar só dele, com seu nome na porta e uns girassóis namorando lavandas.

Para construir a Casa Amarela, tive de pedir ajuda. Um outro amor – que compreendia muito bem o primeiro e que tinha uma barba escura, como noite sem estrelas – me estendeu a mão e disse: “Toma todos esses brilhantes. Eles agora são sólidos, mas já foram as gotas do meu suor que, no trabalho insano que me consome, escorreram de minha testa, caíram no chão e viraram diamantes. Eles valem muito. Use-os bem”.

Vendi os brilhantes de suor e com eles construí a Casa de Vincent. Hoje, quando meu amor chegou à Casa Amarela, pude ver que Van Gogh – esse menino travesso – havia pintado estrelas branquinhas na barba do homem que me deu diamantes.

King Winning

Então ele sai. Está apressado: estágio, aulas, textos enormes para ler. Mostra-me umas provas complicadíssimas em que discorre sobre teses que mal consigo imaginar do que tratam. Agora também fala de uns alunos que o chamam de tio. De vez em quando espreito enquanto ele estuda: teorias profundas que têm como trilha sonora algo lançado pela indústria fonográfica entre a década de 30 e os dias de hoje.

Seu ouvido democrático ouve Elvis, samba, tango de Gardel, marchinha de carnaval dos anos 40, discursos, canções do ABBA, Dr. Dog, vassourinha de Jânio Quadros e trilha sonora de Sessão da Tarde, sem falar nos atentados perpetrados em disco na década de 80 e todas as bandas alternativas da Europa. Dele, Bilu já disse: “Se esse menino morrer, não vou conseguir mais ouvir música nenhuma, pois tudo me lembra ele!”. Se esse menino morrer – penso eu – leva consigo metade de minha alegria e a quase totalidade das minhas reclamações.

Às vezes acho que fica imaginando formas de me fazer rir cada vez mais alto. Como quando se finge de retórico grego para impressionar a cozinheira. Ou quando abre a porta da rua, tocando trombeta e anunciando a si mesmo: “O rei chegou! Preparem o almoço do rei!”

E lá vai ele. De repente… volta, tira os fones de ouvido (sabe Deus o que estará escutando) e sorri simplesmente: “Tchau, Billie!”. Duas palavras e diante de mim já não vejo aquelas pernas tão compridas e um rosto barbeado. Surge um garotinho redondo, com olhos de açúcar, que me corta a respiração. E é assim que, instantaneamente, a primavera chega ao meu mundo.

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