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Para Alex, com a minha gratidão e amor.

vincent e estrelas

Cartoon de Barbara Stok, na revista em quadrinhos ‘Vincent’

Eu quis construir  uma casa amarela para um dos meus amores morar. Afinal, ele era solitário e pintava com uma técnica inovadora: cortava um pedaço da alma, misturava a umas cores intensas, adicionava gotas de um amor profundo e sonhador. Misturava tudo em pinceladas grossas como lágrimas de um choro sentido. E ele, que sonhava com uma casa amarela, ganhou finalmente um lugar só dele, com seu nome na porta e uns girassóis namorando lavandas.

Para construir a Casa Amarela, tive de pedir ajuda. Um outro amor – que compreendia muito bem o primeiro e que tinha uma barba escura, como noite sem estrelas - me estendeu a mão e disse: “Toma todos esses brilhantes. Eles agora são sólidos, mas já foram as gotas do meu suor que, no trabalho insano que me consome, escorreram de minha testa, caíram no chão e viraram diamantes. Eles valem muito. Use-os bem”.

Vendi os brilhantes de suor e com eles construí a Casa de Vincent. Hoje, quando meu amor chegou à Casa Amarela, pude ver que Van Gogh – esse menino travesso – havia pintado estrelas branquinhas na barba do homem que me deu diamantes.

Então ele sai. Está apressado: estágio, aulas, textos enormes para ler. Mostra-me umas provas complicadíssimas em que discorre sobre teses que mal consigo imaginar do que tratam. Agora também fala de uns alunos que o chamam de tio. De vez em quando espreito enquanto ele estuda: teorias profundas que têm como trilha sonora algo lançado pela indústria fonográfica entre a década de 30 e os dias de hoje.

Seu ouvido democrático ouve Elvis, samba, tango de Gardel, marchinha de carnaval dos anos 40, discursos, canções do ABBA, Dr. Dog, vassourinha de Jânio Quadros e trilha sonora de Sessão da Tarde, sem falar nos atentados perpetrados em disco na década de 80 e todas as bandas alternativas da Europa. Dele, Bilu já disse: “Se esse menino morrer, não vou conseguir mais ouvir música nenhuma, pois tudo me lembra ele!”. Se esse menino morrer – penso eu – leva consigo metade de minha alegria e a quase totalidade das minhas reclamações.

Às vezes acho que fica imaginando formas de me fazer rir cada vez mais alto. Como quando se finge de retórico grego para impressionar a cozinheira. Ou quando abre a porta da rua, tocando trombeta e anunciando a si mesmo: “O rei chegou! Preparem o almoço do rei!”

E lá vai ele. De repente… volta, tira os fones de ouvido (sabe Deus o que estará escutando) e sorri simplesmente: “Tchau, Billie!”. Duas palavras e diante de mim já não vejo aquelas pernas tão compridas e um rosto barbeado. Surge um garotinho redondo, com olhos de açúcar, que me corta a respiração. E é assim que, instantaneamente, a primavera chega ao meu mundo.

Para o Tatá

Beta HCG. Nós. Medo. Excitação. Desconhecido. Roupinhas. Sorrisos. Ventre. Movimento. Dragãozinho. Lágrimas. Dor. Leboyer. Beijos. Olhos azuis. Eu e você afinal. Amor. Leite. Beijos. Sorrisos. Cólica. Roupinha azul. Parquinho. Chuvas. Dente de leite. Beijos. Fotos. Aniversário. Palhaços. Violão. Tubarãozinho. Dança. Beatles. Mozart. Balões. Chapéu de papel. Marcha Militar. Schubert. Canções. Sapo não lava o pé. Beijos. Castelo do He-man. Fotos. John. Jornal. TV. Trabalho. Saudade. Ventre. Beijos. Vinicius. Amor.  Gordinho. Leite. Escola. Risadas. Ventre. Sala de parto. Nadja. Beijos. Amor. Shakespeare. Desenhos.  Jornal. Brasília. Carmen Salles. Flocos de algodão na rua. Seca. Piano. Violão. Violino. Mangá. Beatles Day. Vozes negras tão belas. Beijos. Abandono. Silêncio. Juntos. Bocage. Risadas. Beijos. Vestibular. Cabelo longo. Sombrero. UnB. Vincent. Leonardo, Ariano. Beijos. Alexandre. Casamento. Trabalho. Design. Arte. Folha de São Paulo. Saudade. Bicentenário. Selo. Vovô. Morte. Lágrimas. Irritação. Dor. Sombra. Desgosto. Raiva. Medo. Apartamento. Reconciliação. Vovó. UTI. Abraçados. Grande viagem. Lágrimas. Saudade.  Rotina. Banco. Progresso. Beijos. Rebeca. Los Roques. Prêmios. Artur Miró & Anabela Dente de Leão. Casaquinhos. Olivinha. Zépretinho. Casamento. Felicidade. Beijos. Chá. Paris. Praga. Superinteressante. Jantares. Pós com Beatles. Conversas até o amanhecer. Dawkins. SamHarris. Darwin. Ciência. Sentido da vida. Debates. Deixa eu falar! Drinks. Canadá. ARA. Saudade. Beijos. Texto. Amor.

Vysotsky

Imagine-se em meio à opressão, afogando-se em sistema que tudo comanda e silencia. Poder você não tem, nem dinheiro. Sequer a mão da mulher amada ao alcance da sua. Mas há a voz. Não uma voz qualquer, afinada e bela, mas uma voz única, que escancara as portas da sua garganta e invade o ouvido alheio. Uma voz que não pede licença nem  desculpas, que não admite freios. Ela está ali, pronta a rasgar a jugular de alguém, a ser catarse e loucura, paixão e intensidade. Essa voz cheia de opinião, essa voz indomada, que só se cala com a morte, é a voz de Vladimir Vysotsky (leia a biografia em português ou, mais completa, em inglês). Foi a voz que fez o impossível: curvar o sistema soviético a uma arte que jamais fez concessões.

Ouvir Vysotsky é sentir que, apesar de mãos atadas diante dos poderosos, ainda assim é possível gritar muito alto, mastigar as sílabas, cerrar os dentes, comprimir os lábios, fazer os olhos fuzilarem o adversário. E embalar tudo isso em pura poesia, em palavras que trazem lágrimas aos olhos, em canções feitas para iluminar as mentes dos que não se abatem diante de coisa alguma.

Mikhail Baryshnikov traduziu, numa cena  antológica de um filme menos que mediano (White Nights), a intensidade das palavras de Vysotsky na canção Кони привередливые (letra original aqui e tradução para o inglês aqui).

Mas, acredite-me: Vysotsky é ainda mais poderoso. Koni priveredlivye (a música que Baryshnikov dançou) talvez seja a mais famosa fora da Rússia, mas na canção abaixo é que se torna possível ver a força do olho deste furacão de emoções que é Vysotsky. Nada o traduz mais. Ela se chama Спасите наши души, que significa nada menos que SOS – salvem nossas almas – e traduz a pressa e o horror de quem morre sufocado. Sim, é claro que é uma letra de duplo sentido. Caso contrário, não seria Vysotsky.

Eu adoraria ser uma lady, dessas olímpicas, meio Greta Garbo, ar glacial, sobrancelha arqueada de quem tem certeza absoluta de que jamais descerá do salto altíssimo para dar atenção ao jus sperniandi dos mortais. Mas não sou assim. Sou passional demais para ser diva gelada.

Muitas coisas me tiram do sério, mas minha ira alcança píncaros diante de tentativas de proibição de livros. A prática é antiga, obscurantista, autoritária e preconceituosa. Sim, porque parte do princípio que o leitor não terá discernimento ou inteligência para fazer um juízo crítico sobre o que leu. Quem proíbe livros julga que o leitor é estúpido demais para separar o joio do trigo e será presa fácil das ideias do autor. Ou seja: algum “iluminado” deve tutelar esse leitor desavisado para que ele não absorva ideias que ameaçam o pensamento vigente. Há também os que proíbem livros simplesmente porque eles contrariam as ideias de um grupo.

Foi assim que a biblioteca de Alexandria virou cinzas várias vezes, ou que a revolução cultural chinesa apagou os registros da ópera e da medicina tradicional. Também partiu do mesmo princípio a inquisição católica que quis calar Descartes, Kant, Galileu, Voltaire, Giordano Bruno e Níkos Kazantzákis, cujo livro deu origem ao incompreendido filme A Última Tentação de Cristo. Assim também não sobreviveram os escritos da astrônoma e filósofa Hipácia de Alexandria. Jogue-se à fogueira corpos e livros – para que só sobreviva o que é considerado “adequado e bom” pelo grupo dominante.

Escrevo isso, claro, por causa da tentativa de expurgar o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, das escolas públicas. Alega-se que se está reintroduzindo racismo nas escolas (ora façam-me o favor!). Parece-me até meio óbvio e repetitivo dizer que várias gerações brasileiras leram Monteiro Lobato e não se tornaram racistas. Mas também parece-me mais um sinal inequívoco desses tempos em que se lê apenas o lead das reportagens, comenta-se com ares de autoridade o livro que jamais se leu e repete-se, feito papagaio bem treinado, o que está nas páginas da web.

Alguém disse que Lobato se referiu a tia Nastácia como “macaca” e os preguiçosos teleguiados acenaram com as cabeças repetindo feito ovelhas orwellianas “racista, racista” e danaram-se a sair espalhando pelos blogs e redes sociais que Lobato literalmente chamou tia Nastácia de macaca nas Caçadas de Pedrinho. A estes sugiro a leitura do livro (PDF aqui). Oh, surpresa, verão que o texto correto é assim: “Sim, era o único jeito — e Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida”. O que Lobato está fazendo é comparar a agilidade de Nastácia com a de um macaco. Como coincidentemente tia Nastácia é negra, criou-se a celeuma.

Descontextualização é indício inequívoco de desonestidade intelectual. Por outro lado, ao ler Monteiro Lobato com olhos de século XXI recai-se no grave erro do anacronismo (saiba aqui do que se trata). É recomendadíssimo ao leitor honesto reconhecer Monteiro Lobato como um  homem de seu tempo, expressando as ideias vigentes à época e com o estilo característico do período em que viveu. É óbvio que para os dias de hoje a construção da frase citada não apenas soa inapropriada e deselegante, além de capaz de gerar interpretações dúbias, mas é suficiente para proibir o livro? Simplesmente apagar o passado é medida sábia? Ou estará mais de acordo com a opressão que deseja reescrever tudo em seus próprios termos? A riqueza da preservação de uma obra literária, dando-lhe o peso apenas de uma opinião vigente à época, é justamente a possibilidade que oferece de gerar reflexão sobre a mudança dos costumes e o refinamento das formas de expressão. No caso da obra infantil de Lobato, bons professores seriam capazes de extrair belos momentos de aprendizado, tanto do ponto de vista humano, como literário e histórico.

Vários monumentos literários e filosóficos que o ocidente idolatra defenderam ideias controversas ou francamente tolas, fruto de atavismos, orgulho exacerbado ou teorias esdrúxulas que lhe brotavam dos cérebros geniais. É forçoso vê-los apenas expressando o pensamento em voga na sua época e cultura – ou mesmo fruto de suas vivências e crenças particulares. Dessa situação não escaparam, por exemplo, Aristóteles e John Locke, ambos defensores da escravidão.

E o que dizer da coleção de crimes descritos e prescritos pela Bíblia? Estupro, incesto, assassinato? Está tudo lá! Aí é uma questão de coragem: bater em Lobato é fácil; quero ver quem vai pedir o expurgo da Bíblia, cuja leitura é recomendadíssima pelos tementes para formar bons caracteres judaico-cristãos.

Não contesto que Lobato tenha ideias racistas em algumas de suas cartas e na obra adulta O Presidente Negro, mas ponha-se assim em perspectiva: ele é apenas um ser humano, um mamífero. Não se exija dele uma perfeição que não temos nós outros. Aristóteles – mente brilhante – forçou a mão na tentativa de explicar tudo o que via e produziu tesouros imensos, mas também deixou escapar “pérolas” como a que explicou por que serpentes não têm pênis: ora, porque não têm pernas! (Está aqui, sr. cético, no início do capítulo 7 do Livro I) E Crisipo, com suas pulgas tão úteis ao bom funcionamento do mundo? Não vou ferir susceptibilidades mencionando as intrigantes teses de São Tomás de Aquino (ah, a Escolástica e suas belezas) sobre o perigo do incesto resultar em um surto incontrolável de relações sexuais por unir dois amores fortíssimos: o dos esposos ao dos irmãos; ou seu insuperável ranking que aponta a prática homossexual, o sexo com contraceptivos e a masturbação como “pecados” muito piores que estupro.

Mas voltemos a Lobato. Suas opiniões em cartas e obras adultas devem ser razão para condenar ao ostracismo sua riquíssima obra infantil? Uma obra capaz de estimular aquilo que mais nos falta hoje:  senso crítico? Emília é uma atrevida, inconformada, que contesta tudo – uma mini musa inspiradora para quem cultiva o cérebro. Muito mais razões teriam os amantes dos livros para pedir a cassação de Paulo Coelho por crime de lesa-literatura, mas a ninguém ocorre – nem deve! – fazer isso!

A propósito, um dos contos mais famosos de Lobato, “Negrinha”, foi uma das obras essenciais para a minha formação libertária. Li Negrinha quando criança e a crueldade da sinhá Inácia,  expressa naquele texto, foi decisiva para que eu refletisse sobre a maldade e o preconceito humanos. Graças a Negrinha (que você lê aqui)  e a Lobato impregnou-se desde cedo, em mim, um verdadeiro horror à opressão e um amor pelos negros vítimas de preconceito. Lembro-me de haver chorado várias vezes diante do sofrimento daquela criança fictícia e de haver sonhado em libertá-la. Escrevi, ainda menina, um outro final para Negrinha. Nada realista, ao contrário, muito utópico, no qual eu a roubava da sinhá e a levava para ser minha irmã em nossa casa, onde lhe dava minhas bonecas e brincávamos no quintal.

Nutro desde então uma admiração ostensiva pelos cabelos encaracolados, pela pele escura, pelo timbre peculiar das vozes e pela incrível beleza do porte de homens e mulheres negros. Minha lista de favoritos inclui todas as divas do jazz e, se tivesse de levar um só cantor para uma ilha deserta, seria Sam Cooke.  E porque digo isso? Para me justificar? Claro que não! Para que fique bem claro que leitores de Lobato não se tornam racistas por lerem O Picapau Amarelo. Eu o li aos 7 anos de idade, sem tutelas.

Por fim, se vamos iniciar uma caça às bruxas à moda estadunidense, que também decidiu reescrever Mark Twain pelas mesmíssimas razões que se alega para reescrever Lobato,  sugiro as seguintes providências iniciais:

1. Suprima-se da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o escravo Prudêncio, cavalgado pelo menino diabo na infância e que, liberto, passa a torturar um outro escravo negro.

2. Afaste-se dos olhos impolutos dos adeptos da teocracia estatal as menções ao amor homossexual que permeia a obra de Platão. Também é oportuno banir Platão por causa de sua opinião sobre os poetas.

3. Proíba-se Lolita, de Nabokov, por incitação à pedofilia.

4. Queime-se as obras de Aristóteles e John Locke que defendem a escravidão.

5. Apague-se para sempre qualquer resquício de A Arte de lidar com as Mulheres, de Arthur Schopenhauer, por crime de misoginia.

6. Vomite-se para fora do mundo La philosophie dans le Boudoir, do Marquês de Sade, por induzir mentes sensíveis a atos sadomasô.

No Himalaia, o velho nômade Sonam e sua tribo encaram o desafio de sobreviver numa região na qual a terra ressequida dos meses de verão dará lugar em breve à neve que cobrirá os picos altíssimos. Nos vales, os rios se foram e, com eles, o verde das pastagens, tornando a vida mais dura. Os jovens abandonam a tradição milenar dos antepassados e debandam em busca de emprego na cidade. Gentes e bichos sofrem no deserto de uma paisagem esmagadoramente bela.

Sonam alia o estereótipo do homem idoso e sábio do oriente às preocupações de pai e de participante de uma comunidade que agoniza. Seus amigos – considerados ricos em sua terra – sucumbiram ao sonho da cidade, onde se tornaram mendigos, em meio à fuligem dos carros e à indiferença dos passantes. Envergonham-se demais e não conseguem voltar.

Sonam guarda consigo os segredos de sua gente: tapeçaria, construção. Em seu coração generoso, os costumes não podem morrer, a tradição está ameaçada e tudo o que lhe constituiu a vida até agora ameaça ser engolido pelas coisas modernas “que são belas, mas não duram”.

Com esse material humano em mãos, a Enigma Filmes construiu um belo documentário: A Terra da Lua Partida (The Broken Moon). Desnecessário dizer da beleza das imagens, mas é necessário louvar a riqueza de uma edição que traduz com exatidão os sentimentos de Sonam, sua família e amigos. Uma câmera imparcial, não invasiva – testemunha silenciosa em meio à dor bruta que atinge o velho nômade.

Veja o documentário com calma (A Discovery está exibindo sob o nome de Nômades do Himalaia). Nada de pressa para não perder a oportunidade de observar e refletir muito sobre o valor e o peso de uma cultura ancestral, sobre a medida do sacrifício de cada um, sobre a universalidade das práticas religiosas e das expectativas que geram no peito onde se aninham fiapos de esperança.

Para mim, cada imagem veio revestida de um significado profundo: dos óculos de sol dos Lamas às mãos nodosas do velho que agarram o odyuzu sentado em silêncio no alto da montanha de areia e pedras. Ou as bandeirolas budistas que tremulam ao vento onipresente do Himalaia, assinalando um pedido de socorro que não será atendido. E o que dizer dos sentimentos que desperta o homem solitário que atravessa  a neve funda, abrindo mão de tudo o que lhe é mais caro, para que seu objeto de amor possa sobreviver – não é este, afinal, o sentido pleno da palavra sacrifício?

A produção merecidamente tem recebido prêmios em vários países. Vale a pena especialmente pelo conjunto de reflexões que desperta nos espíritos abertos a pensar sobre o mundo e sobre o que nos rege. Quem, além dessa câmera tão íntima, nos poderia revelar a extensão desse conflito, ou uma relação entre pai e filho tão distante da nossa maneira ocidental de lidar com os confrontos? Quem nos mostraria a calma quase impossível com que se lida com situações limite? Outro universo, outra cultura, outro modo de ser e de viver – tão longínquos e diversos – mas agora tão perto de nós.

Vincent

Retrato de Van Gogh, por Henri de Toulouse-Lautrec.

Vincent é a cor derramada em profusão e intensidade sobre uma tela receptiva e dócil. Pinceladas que carregam o peso do mundo, entre os dourados mais vivos e os azuis sonhadores.

Cores de alucinação, entranhas e tormento que trazem lágrimas aos olhos, nó na garganta e – sim – sorrisos sem fim quando se está diante de uma tela feita de sol e de paixão.

Não basta pintar. Há de se pôr na tela a própria alma, misturar seu sangue bem vivo às tintas, evocar todas as Fúrias e Graças a fim de fazer brotar algo capaz de superar os grandes marcos da morte e do tempo.

Para ti, meu Vincent, revivo este poema de dame Cecília Meireles, já que possessos e poetas se compreendem a bocca chiusa.

Canção para Van Gogh

Os azuis estão cantando
No coração das turquesas:
Formam lagos delicados,
Campo lírico, horizonte,
Sonhando onde quer que estejas.

E os amarelos estendem
Frouxos tapetes de outono,
Cortinados de ouro e enxofre,
Luz de girassóis e dálias
Para a curva do teu sono.

Tudo está preso em suspiros,
Protegendo o teu descanso.
E os encarnados e os verdes
E os pardacentos e os negros
Desejam secar-te o pranto.

Ó vastas flores torcidas,
Revoltos clarões do vento,
Voz do mundo em campos e águas,
De tão longe cavalgando
As perspectivas do tempo!

No reino ardente das cores,
Dormem tuas mãos caídas.
Luz e sombra estão cantando
Para os olhos que fechaste
Sobre as horas agressivas.

E é tão belo ser cantado,
Muito acima deste mundo…
E é tão doce estar dormindo!
É preciso dormir tanto!
(É preciso dormir muito…)

Amsterdã, 5 de novembro de 1951.

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