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bouguereau1. FHC – acho ótimo a PF pedir investigação, pois ninguém deve ser poupado. Se a investigação confirmar o que a ex-amante, Mirian Dutra, disse à Folha de SP (que eram recursos dele e não dinheiro público), bom para ele. Se comprovarem que ele cometeu algum crime, que seja punido exemplarmente. Bônus: a) esclarece de vez essa história; b) cai o “mito” de que ninguém investiga os tucanos.
2. Lula – acho ótimo se for investigado, pois ninguém deve ser poupado. Se a investigação confirmar que é a alma mais honesta do país e o sítio, o triplex e a corrupção nada tem a ver com ele e família, bom para ele. Se comprovarem que ele cometeu algum crime, que seja punido exemplarmente. Bônus: a) esclarece de vez essa história; b) cai por terra o “mito” de está com medo de depor ao MPF e tentando obstruir a investigação via liminar no Conselho Nacional do Ministério Público, a campanha difamatória contra Sergio Moro, a pressão sobre o ministro da Justiça para calar a Polícia Federal e agora o habeas corpus do TJSP.

A ilustração? “Dante e Virgílio no inferno”, de William-Adolphe Bouguereau. Uma referência à Divina Comédia. Os poetas assistem à luta de duas almas condenadas no oitavo círculo do inferno, onde estão os que em vida induziram outros a praticar a fraude. Escreveu Dante Alighieri: “O fogo que os atormenta também oculta os conselheiros da fraude, pois o pecado deles foi cometido escondido. E como pecaram com suas línguas, agora a fala só pode passar pela língua da chama furtiva”. Eu só não sabia que Dante era profeta, além de excelente poeta (opa, rimou!). 🙂 

vincentSonia Zaghetto

Assisti ao discurso do ex-presidente Lula da forma o mais isenta possível e mente aberta. Obviamente não esperei grandes mudanças, mas imaginei que haveria um pouco de autocontrole como demonstração de inteligência. Aguardei alguma demonstração de contenção, se não por gestão de imagem, mas como medida destinada a não aumentar a grande fogueira dos ódios deste país. Imaginei que, dado o momento inédito em sua vida, manifestaria algum respeito aos milhões de brasileiros cujas mentes não se curvam à retórica barata. Em vão: palavras vazias, em uma fala recheada de clichês e tolices, plena de auto louvação, piadas grosseiras, delírios narcisistas e frases piegas que comoveriam apenas pré-adolescentes ou amigos encharcados de boa vontade.

Houve, ainda, uma revisita a dois clássicos: a velha estratégia vitimista sobre a perseguição movida pelas elites por ser o redentor dos pobres; e o desejo sádico de alimentar um pouco mais o ódio que hoje divide seus compatriotas. Observei-lhe o rosto contorcido, a expressão raivosa, a incapacidade de se reconhecer como cidadão comum, submetido às leis do país. E entendi: Lula hoje acredita piamente na imagem que ele e seus aduladores criaram. Para ele, é inadmissível que seja investigado, ou conduzido a depor: trata-se de falta de respeito. Logo ele, tão grandioso, dotado de tal inteligência que chega a mencionar com desprezo os que dedicam longos anos ao estudo.

Atrás dele, uma multidão aplaudia, mesmerizada. E me veio à memória uma história que se conta sobre Julio Cesar. Ao entrar triunfante em Roma, quase semideus em sua dourada carruagem, trazia consigo um escravo que o prevenia contra os excessos da vaidade, lembrando-o, de tempos em tempos: “Memento mori!” (Lembra-te que és mortal!).

É uma pena que Lula não tenha entre os seus quem o alerte para os excessos intoxicantes da vaidade que cega.

É uma pena que Lula ame apenas a si mesmo e não ao país, transformando uma parte significativa de nossa população em inimigos sobre quem açula seus cães.

É uma pena que ninguém lhe diga, francamente, que o rei está nu – que sua habilidade de comunicação só funciona para dois segmentos: os que se renderam a essa nova forma de fanatismo criada por seu partido; e a parcela da população cuja ausência de educação é louvada como vantagem e não como vergonha.

Despido de riquezas morais, passará à história como fanfarrão histriônico.

Órfão de qualidades éticas, não consegue reconhecer que ultrapassou todos os limites.

Desabituado à reflexão, não vê além dos limites das necessidades básicas.

Embriagado pela bajulação, não consegue ver nas críticas de milhões de brasileiros a advertência severa para seus excessos.
Tudo isso, Lula já havia demonstrado sobejamente em ocasiões anteriores. Hoje apenas reafirmou, em rede nacional, que desconhece o significado da palavra grandeza.

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Sonia Zaghetto

Fôssemos um país decente e toda a nação teria assistido – em silêncio atento e constrangido – ao primeiro dia do julgamento da denúncia contra Eduardo Cunha no STF.

Foi uma amostra da decadência moral que parece permear tudo; uma doença que corrói todas as coisas que toca e que entorpece os espíritos perante essa tragédia brasileira que é a corrupção. Um horror que atinge o governo e quase toda a classe política, alcança a esfera privada e se replica até os confins do país, tornando-se quase banal entre a população, pois está igualmente nas pequenas espertezas e malandragens cotidianas.

No STF se falou não só da já conhecida troca de favores, do roubo despudorado que domina as mais altas esferas do poder na nossa pobre República ou do envolvimento doentio de empresários nas negociatas: vimos, também, instituições religiosas e cidadãos anônimos indiferentes ao descalabro, comparsas dos ilícitos, parceiros do crime nesse grande festival de consciências adormecidas.

Até o fim desta semana, Cunha será transformado em réu e seus pares deveriam cassá-lo sumariamente. Mas a realidade tem outro ritmo, além de ritos a obedecer. Para mim, o desolador desse dia é saber que Cunha é apenas um entre tantos brasileiros que escolheram o caminho do enriquecimento às custas do Estado e do esmagamento progressivo dos compatriotas que morrem diariamente nos hospitais desguarnecidos, frequentam escolas sucateadas e encaram a indignidade de ruas sem saneamento básico e o transporte urbano degradante.

Eu – assim como Diógenes de Sínope, que usava uma lanterna para procurar um homem honesto na antiga Atenas – busco os que ainda não perderam a capacidade de se indignar com o esfacelamento da ética em nosso País.

Vejo, compadecida, nosso povo com a cara enterrada nas telas dos celulares, rindo de piadas tolas, acreditando em marqueteiros manipuladores e refém do carisma de anões morais que nos convenceram de que eram gigantes. Ando tentada a acreditar que a picada do Aedes aegypti anestesia a alma, cega para o óbvio e torna frágeis as convicções morais de uma parte significativa de nossa gente.

Alexandre Zaghetto*

inspire-birdsNa primeira vez em que compareci a uma formatura na UnB não foi na condição de professor. Eu estava aí onde vocês estão. E uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi a indiferença dos que não estavam diretamente envolvidos aqui na cerimônia de colação de grau.

Do lado de cá, como hoje, estavam presentes o reitor, coordenadores de curso, chefes de departamento, diretores de instituto, professores, funcionários, etc. Mas isso em nada parecia inspirar qualquer tipo de respeito por parte de parentes e amigos. Não digo respeito pelos títulos em si, mas pelo esforço que aquelas pessoas haviam feito para que a Universidade pudesse permanecer de pé durante o tempo em que os formandos eram apenas alunos de graduação. Essa mesma Universidade que naquele momento estava sintetizando em um diploma anos de dedicação de professores, alunos e funcionários.

Por isso, esta é a primeira reflexão que eu gostaria de fazer hoje. E ela é sobre o respeito e a gratidão.

Treinamento técnico vocês tiveram o suficiente aqui na Universidade, mas são os padrões ético-morais que definem o caráter de uma pessoa. Muitas situações de decisão difícil se apresentarão a vocês e, acreditem, nossa mente é suficientemente astuta para encontrar justificativa para tudo. E decidir pelo que não é correto, quando conveniente, pode tornar-se fácil. Principalmente se o ambiente onde nos encontramos se apresenta com algum grau não desprezível de desorganização, como é o Brasil. E eu estou falando de corrupção no sentido mais amplo da palavra.

Assim, esta segunda reflexão é sobre a firmeza de caráter e a honestidade.

O Brasil apresenta uma série de desafios. E estes desafios só podem ser vencidos se colocarmos nossa criatividade em ação. Mas não a pseudo-criatividade, esta que as vezes é atribuída ao nosso povo e que eu chamo de criativitite.

Pensar fora da caixinha é mais difícil do que parece. Einstein certa vez disse: “Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o gerou”. Por isso, precisamos conduzir nossa criatividade a patamares mais elevados, a “uma atmosfera forte”, como diria Nietzsche.

A geração atual acredita ser toda formada por gênios, bastando apenas ao mundo reconhecer sua genialidade. A verdade, porém, não é essa. Para se enfrentar os problemas graves do Brasil, “é preciso estar preparado para as alturas (…)”, onde “próximo está o gelo” e “atroz é a solidão”. Em outras palavras, o Brasil pode ter seus problemas minimizados, mas apenas se dedicarmos o tempo necessário subindo ao cume da montanha de onde poderemos respirar o ar rarefeito das alturas e a partir de onde teremos condições de vislumbrar as soluções necessárias.

A terceira reflexão, então, é sobre o esforço e a dedicação.

Se destinarmos algum tempo combatendo em nós mesmos qualquer tendência à alienação, perceberemos que há coisas que exigem mudança imediata. Brasília é a unidade federativa com o maior PIB per capita, o menor índice de analfabetismo, a maior expectativa de vida e o maior índice de desenvolvimento humano do Brasil. Além disso, a UnB está entre as 10 melhores universidades do Brasil. Considerando que a solução para um problema significativo deva ser apresentada, de quem vocês acham que essa solução teria mais condições de surgir?

E isso é refletir sobre a responsabilidade, a habilidade de estar pronto para responder a uma demanda.

A Índia esteve por um longo tempo sob o domínio colonial do Império Britânico. Durante esse período, os indianos foram até mesmo proibidos de extrair sal em seu próprio país. Numa manifestação que ficou conhecida como a Marcha do Sal, Mahatma Gandhi, o grande responsável pela independência da Índia, caminhou pacificamente por 400 km durante 25 dias em direção ao litoral e mostrou aos milhares que o seguiram como fazer sal, desobedecendo às leis impostas pelos ingleses.

Observei com certa atenção as manifestações recentes dos estudantes em São Paulo contra a reorganização da rede escolar estadual. Fiquei me questionando o que será que teria acontecido se as manifestações se resumissem ao não comparecimento absoluto às aulas em vez de invasões, bloqueio de vias e confronto com a polícia?

Manifestações pacíficas, ponto que acabamos de evidenciar nessa quinta reflexão, não são necessariamente desfiles de carnaval fora de época. Elas podem ser inteligentes.

Em 2011 o mundo testemunhou um acidente nuclear em Fukushima, no Japão. Eu assisti, sem acreditar no que estava vendo, a um grupo de Engenheiros idosos, aposentados, na faixa dos 70 anos de idade, oferecendo-se para conter o vazamento na usina, assumindo o lugar dos mais jovens.

Esta sexta reflexão é sobre o sacrifício.

Em 2 de outubro de 1884, Vincent Van Gogh escreveu em uma carta a seu irmão Theo: “Eu prefiro morrer de paixão do que de tédio”. A paixão pode fazer do Engenheiro um artista, elevando a tarefa mecânica à categoria de obra de arte. A paixão faz do apaixonado alguém que se destaca em meio à multidão.

Viver de forma apaixonada é a sétima reflexão.

Oscar Wilde certa vez disse: “Não sou jovem o bastante para saber tudo”. Possivelmente estava se referindo à pressa com que via de regra muitos jovens julgam, sem a devida atenção, as situações que se lhes apresentam. Quando perguntamos a alguém “por que um objeto cai em direção à Terra”, a resposta que está na ponta da língua é emitida com indiferença e sem qualquer maravilhamento: “Por causa da gravidade”. É verdade. Mas o que é a gravidade?

É necessário observar com eterna inquietude e espírito investigativo cada fenômeno ao nosso redor. Dizem para NUNCA utilizarmos palavras como TUDO ou NADA. Mas já que essa própria regra faz uso da palavra NUNCA, ouso dizer que NADA no Universo deve tornar-se banal aos nossos olhos.

Sendo assim, a oitava e última reflexão é sobre a inquietude científica.

Eu tenho um desejo muito grande de ver as coisas melhorarem para todos nós.

Vocês podem dizer que eu sou um idealista, mas acreditem, eu não sou.

Assim, por tudo isso que foi dito, a última tarefa que eu peço como professor é: façam o diploma de vocês valer.

Obrigado e parabéns a todos.

  • Prof. Dr. Alexandre Zaghetto, professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília.  Discurso proferido no dia 19/02/2016 na cerimônia de formatura dos alunos de Engenharia Elétrica, Mecatrônica, de Computação, Mecânica e de Redes da Universidade de Brasília.

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Para Jamile, ela mesma um raio de sol

 

O dia surge cinza, pálido e meio sujo de sangue. Da tela encharcada de vermelho, emerge fumaça e desesperança. Um mundo que desaba, engolido por selfies e selfish. Poucos livros, muitos posts. E Robin Williams foi mais um a desistir. Sinto-me como Maiakovski olhando, com ar de apatia, para a parede onde o deprimido Serguei Iessenin escreveu, com o próprio sangue, seu poema de despedida, antes de se suicidar (como se diz hoje em dia e bem eufemisticamente) por asfixia, no Hotel Angleterre.

 

 

Até logo, até logo, companheiro,

Guardo-te no meu peito e te asseguro:

O nosso afastamento passageiro

É sinal de um encontro no futuro.

Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.

Não faças um sobrolho pensativo.

Se morrer, nesta vida, não é novo,

Tampouco há novidade em estar vivo.

 

Imagino Maiakovski diante do poema-testamento. A resposta vindo entre o amargor, a raiva e a impotência, entremeadas com algum humor tímido no Poema da Noite, em tradução de Haroldo de Campos. Tentativa trêmula de responder aos que criticaram o suicídio do amigo usando a sempre atual prática de julgar a vida alheia com parâmetros superficiais e tolos.

Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo … Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool, nem dinheiro.
Sóbrio, vôo sem fundo.
Não Iesiênin,
não posso fazer troça,
Na boca uma lasca amarga
– não a mofa.
“É o vinho”, a critica esbraveja,
“se trocasse a bebida pela classe,
ela lhe daria um norte”.  E a classe,
por acaso,
mata a sede com xarope?
Melhor morrer de vodka que de tédio.
Talvez,
se houvesse tinta no Inglaterra
você não cortaria os pulsos.
Os plagiários felizes pedem bis!
Já todo um pelotão em auto-execuçaõ!
Para que aumentar
o rol dos suicidas?
Antes aumentar a produção de tinta!
Por enquanto há escória de sobra.
O tempo é escasso
– mãos à obra!
Primeiro é preciso transformar a vida,
para cantá-la em seguida.
Os tempos
estão duros para o artista.
Mas dizei-me, anêmicos e anões,
os grandes,
onde, em que ocasiões,
escolheram uma estrada batida ?
Para o júbilo o planeta está imaturo,
é preciso arrancar alegria ao futuro.
Nesta vida,
morrer não é difícil,
difícil é a vida e seu ofício.

Ah, Maiakovski, só temo que daqui a cinco anos seja eu a igualmente desistir. Acho que não. Talvez eu me vá naturalmente, num dia de sol, apenas por estar cansada de manter os olhos abertos.  Mas, por ora, apesar do desânimo momentâneo, ainda recolho – aqui e ali – raios de sol que atravessam a bruma e trazem luz aos olhos. Como ouvir Ravi Shankar e George Harrison tocando cítara juntos.

Ainda há livros, poemas, música e esperança.

painfulQuerido M.A.,

escrevo-te esta missiva usando a  segunda pessoa do singular, pois acredito que já são poucos os que, no Brasil, usam adequadamente o pronome tu, que tem um ar de tempos passados, senhoriais. Peço-te que releves tal intimidade, dado o nosso longo tempo de convivência. Também é necessário que entendas que escolhi tal forma de tratamento e outros recursos da escrita dos tempos antigos pois assim tenho mais chances de que um possível violador de correspondências nada compreenda do que vou te narrar. Esta carta  é secreta e assim deve permanecer. Explicar-te-ei agora porque corro sérios riscos ao me ligar a ti.

O objetivo desta é informar-te que a tristeza ultimamente tem me consumido a alma. E é por tua causa que meu coração chora. Aqui, na terra onde nascemos – eu e tu – há uma nova moda: a facilidade instantânea e a todo custo. Por causa dela instituiu-se uma lei que agora rege a vida de boa parte de nossos compatriotas: a que determina que todo esforço intelectual é crime. Estender a mão em direção a um dicionário cansa sobremaneira os meus contemporâneos. Ler um livro como os teus tornou-se tarefa hercúlea. Entender tuas palavras exige demais das novas gerações.

Assim, querido amigo, é com com extremo pesar que te informo que és persona non grata em muitos círculos. Teus enormes parágrafos, repletos de ironia, metáforas e assemelhados, sobrecarregam os jovens cérebros treinados para tuitar (algo mais ou menos como um exercício permanente de elaborar de forma banal aquele micro conto do Hemingway, sendo que em vez de contar uma história densa, informa-se apenas o óbvio de um cotidiano que a ninguém interessa).

Pesa-me, sobremaneira, informar-te que estás ultrapassado em todos os aspectos. Usas pontuação corretamente, escolhes palavras rebuscadas, constróis parágrafos longos (com apostos, ó criminoso!). Por essas e outras, o zeloso Estado brasileiro, atento às necessidades dos estudantes brasileiros, financia uma brilhante intelectual que reescreverá, em linguagem moderna e acessível, estes teus textos ininteligíveis e bizarros. E dá-te, por feliz: muito pior ocorreu com o Lobato e  Twain, pouco tempo atrás!

Usas expressões como sagaz, quiçá ou gárrula! Que queres com isto? Causar um trauma nas jovens mentes preparadas apenas para postar after sex selfies? Um dia eu te explico do que se trata, mas não agora: és um senhor do século dezenove e não estás pronto para saber detalhes sobre como a exibição da intimidade em altas vozes e – literalmente – para o planeta inteiro tornou-se uma das marcas desse novo tempo.

Já não tens mais lugar neste país, onde aquela bela flor do Lácio jaz ressecada, sepultada em um cemitério denominado de “Redes Sociais”.

Assim, caro amigo, esta missiva serve para te informar de que nossa amizade, a partir de hoje, será secreta. Guardo-te ainda, em estremecimentos d´alma, mas já não posso correr o risco de ser excluída da sociedade por tua causa. Dizer publicamente que te amo seria suicídio: os estultos julgar-me-iam  pretensiosa, esnobe e boçal; eu perderia amizades, desgostosas com meu desrespeito às correntes formas de expressão que tudo permitem, inclusive o assassinato da gramática (psiu, falemos baixo: isso agora é palavrão).

Certa estou que não me queres no ostracismo. Sei que desejas o meu bem. Assim, despeço-me de ti, mas antes lego-te uma lista de palavras que deves banir de teus livros. Estão organizadas em ordem alfabética a fim de combinar com a facilidade que é a tônica da Era dos Obtusos, que é como denomino os tempos atuais.

Sê feliz em tua estante empoeirada.

Sempre tua,

Soninha

Index 

A de alforria, abacamartado, alcova, arcádia, albardeiro, arcaísmos, alienista

B de bacamarte, bufão,  botica, broquel

C de crisálidas, casmurro, coxia, cáspite, Carola, Catete, Cosme Velho, cambraia, chilra e carpideiras

D de desenlace, derradeira, disparate, dadival, Dante

E de escritor, escrivão, êmulo, espúrio, erudito, estupefato e epístola

F de falenas, farfalhar, falaço, fúlvido, furtadelas e folgazão

G de garrida, gárrula, gasconada, gongorismo

H de hombridade, homérico, homúnculo

I de ironia, inexorabilidade, imarcescíveis, imprecação

J de jazigo, jimbo, jubiloso

L de literatura, livros, leitura, luminescência, longanimidade, laborioso

M de marmota, miliciano, memórias, manuscritos, míngua, mantilha, mulato, metáfora, mofino

N de niilismo, negligenciado, nosocômio

O de ostracismo, olvido, obreia, óbolo

P de póstumas, petalógica, periódicos, patranha, pusilânime, Platão, páginas, poesia e pastiche

Q de quiçá, queixada, quejando, queixume

R de relíquias, rotundo,

S de sagaz, sequazes, sátira, Schopenhauer, senhorinhas

T de tipógrafo, traslado, taciturno, tertúlias

U de úlcera, ufanista, ulterior, úbere

V de vivenda, versejar, vertiginoso, vestidura, véu, vigília, Virgílio, vate

X de xalma, xeleléu, xendengue

Z de zagunchada, zagaia, zambaio e zambaneira

 

ΛΙΘΟΣ

vincentghetto

J’me sens palote,
Je me sens lote
Les enfants me nettoient
Des inconnus me sortent
A croire quand je me vois
Que je suis déjà morte

(Zaz, Si Je Perds) 

Se você acorda e sua sanidade escorre entre os dedos; se sua alma se debate entre tormentos e delírios, o que devo dizer? Qual a palavra exata para restaurar o que se perdeu?

Entre papéis e rotina, o dia me surpreende investigando em que canto escuro você escondeu o que me sempre foi familiar e seguro. O gemido fere meus ouvidos, a cabeça sob o travesseiro consome o que me resta de esperança e me encolho de medo do seu monstro interno que vejo me espreitar, implacável. O que é esse grito lancinante que atravessa as paredes e me rouba a luz? E os ossos que querem se despregar da carne? Não, não desista ainda.

Mãos torcidas, longas horas de sono, dor de viver, cansaço de vestir essa carcaça que oprime. Não fuja, não. Eu ainda estou aqui. Fixada nos seus olhos afogados investigo o que de você resta sob esses escombros. Não desista.

Inquieta mente que cria abismos, traiçoeira mente que entre delírios e tintas se locupleta em sensações de prazer e dor, desespero e ardência. Uma fome infinita de sentir, de preencher a  lacuna onipresente. Há algo de voraz em você; algo de devorador, que estende seus dentes pontiagudos para o nosso cotidiano. Tenho medo, sabe, mas ainda estou aqui, segurando a sua mão que treme.

Em  meio a essa tragédia surge a centelha intensa, a vontade insana, a obsessão violenta. Febre e volúpia, desejos, ardência e alucinação – leio tudo isso na sua alma inquieta. Dê-me as tintas, os pincéis e as telas! Estendo os pincéis quase em pânico, temerosa da avalanche, da raiva mal contida e do fluxo que arrebata. Mas não me afasto. Estou aqui. Ainda.

Três prótons e três elétrons embalados em um cobertor prateado entram por sua boca, acumulam-se lentamente no seu sangue e estabilizam o que extrapolou a linha fina do que se chama razão. Eu espero. Tenha paciência: estou aqui.

Mergulho nessa turbulência assustadora e seguro suas mãos contra meu rosto. Estou aqui: fique mais um pouco.

Os dias se acumulam e estou tão cansada. De todas as expectativas só me resta uma: a que talvez este sonho mau um dia chegue ao fim e você, afinal, possa emergir para o sol. Neste dia, entre os dourados sons de meu amor, naquele lugar incrível que sonhamos, haverá calma, suavidade, serenidade e meu coração que aguarda, ansioso, pela hora em que afinal poderemos de novo olhar nos olhos um do outro. Sem sombras, sem medo.

Estou aqui. Não vá ainda.

Estilhaços

ange-sorrow-weeping-whiteQuando finalmente Hannalu se deu a ele, era uma tarde de chuvas que encharcavam o chão. Ela havia relutado muito e ele sabia. Não o amava. Havia consentido em estar com ele. Mas estava ressecada por dentro, um coração enrijecido, sombreado, coberto de poeira e rachaduras.

Mas bastou que Bingano, emocionado, visivelmente tenso, encostasse os lábios na boca quase inerte de Hannalu para que algo nela revivesse. Beijo de chuva, macio. Ela reagiu rápido: colou a boca na dele, sôfrega, apressada, bebendo saliva, batendo dentes.

Ele não pensou sobre aquela reação inesperada. E foi em frente. O sexo foi como nadar entre águas-vivas sem saber de seu veneno. Mas ela sabia e, espreitando pelos cílios entreabertos, via os olhos dele bem fechados: preso entre o prazer e o amor profundo – concluiu.

Prazer de sal e de tempestade, de soluços ocultos e de horrores compartilhados.

Muitas horas depois, ela acordou. Ainda sem palavras, foi até a janela e sentou-se – as longas pernas soltas no ar. Pela primeira vez Bingano a viu sem amarras nos cabelos, agora espalhados pelas costas.

Nos olhos úmidos ele leu o medo. Ela se recolhera para algum lugar – inalcançável, atormentada. Aproximou-se e, sem nada dizer, apenas afastou os cabelos e depôs um beijo de amor sobre uma das asas de vidro que ela trazia presas às costas.

59 minutos

Era noite ainda quando ela lhe disse, quase envergonhada, que suas asas continham rachaduras. Ele se espantou, quis conferir. Ela não permitiu. Mas às vezes a via, cuidadosamente retocando as penas transparentes. Unia-as e passava algo que parecia pó de vidro e cola incolor. E lá estavam elas, novamente, parecendo novas.

Somente muitos meses depois, quando as flores coloriram a jardineira do quarto, ela finalmente lhe mostrou as asas partidas. Disse que um dia, ainda muito jovem, havia permitido a um sem-nome que lhe tocasse as asas perfeitas. Com a voz rouca, Hannalu contou como o sem-nome estendeu as unhas e arrancou, sem qualquer piedade, as penas mais belas.

– Foi minha culpa – Ela disse, depois de uma pausa.

– Algo malévolo acontece comigo. Quando nasci, surgiu também a maldição que me consome. De início, olham-me como se fosse estrela, depois descobrem apenas noite escura. E então, devagar, cada um deles, atingido por medo e vertigem, quebra-me as asas e puxa-me para o lodo.

Ao fazer isso, deixou cair a roupa e mostrou-lhe seu verdadeiro corpo. Sem retoques, era marcado por chagas – algumas secas; outras úmidas ainda. As asas eram um mosaico.

Rapidamente ela se recompôs. Muitos pós e cremes, belas roupas e maquiagem, parecia a mesma Hannalu de sempre, com sua beleza de sol e a risada alta.

Bingano mordeu o lábio inferior e prometeu a si mesmo que jamais lhe quebraria as asas. Mesmo assim, poucos meses depois nasceu na sua alma uma vontade insana de ferir Hannalu. Não a queria com os lábios arrebentados ou os olhos roxos, mas tornou-se rotineiro um inconsciente prazer em fustigá-la usando palavras e gestos. E, se ela se encolhesse, o predador silencioso crescia dentro dele.

A primeira vez foi quando ela disse algo que o desagradou. Humilhou-a com uma resposta seca e dura que a deixou zonza. Repetiu a cena semanas depois e, desta vez, sua evidente maldade a deixou, primeiro surpresa, depois abestalhada. Meses depois, berrou até vê-la encolher-se até o chão, salpicada pelo sangue que brotava da boca de Bingano, misturado à saliva dele.

Bingano nem notava mais quando suas palavras caíam sobre Hannalu como bofetadas bem dadas, das certeiras, no meio da cara. Não via seu nariz partido, suas fraturas e o aumento de seus adesivos autodepreciativos. Numa única ocasião, quando notou dois deles, aconselhou, senhorial: “Você precisa aprender a se amar”. Hannalu suspirou, medrosa.

Ela, por sua vez, fez umas contas e decidiu ficar com aquele único minuto de cada hora em que ele sorria como antes. Hannalu deu de colecionar risos e boas memórias. Eram tão raros que foram guardados na caixa de pérolas. Os outros 59 minutos de cada hora ela pôs numa caixa de águas muito frias onde nadavam peixes ferozes e moluscos gosmentos.

Um silêncio se ergueu entre eles uma parede grossa. Ela ainda dizia que o amava, dava-lhe presentes e sorria para ele, mas aos poucos via nascer um medo terrível quando tinha de conversar com Bingano, mesmo sobre assuntos banais.

A instabilidade dele a aterrorizava. Temia o seu ódio, sua impaciência, a crueldade com que a dissecava. Tudo lhe dizia para fugir, mas ela estava cansada. Havia chegado a um ponto de sua vida em que não há mais volta – Bingano seria a última tentativa. E assim, abria a caixa de pérolas e olhava, uma a uma, as risadas juntos, os passeios e as noites e dias de amor em que – sempre, sempre – ele agia como antigamente, com ternura e atenções que ela jamais tivera antes.

Numa tarde de domingo, por um desentendimento vulgar, coisa sem importância, fustigou os animaizinhos que ela criara desde novinhos. Ela engoliu em seco.  Não satisfeito, atirou-lhe mais algumas dúzias de expressões carregadas de signos de desprezo. Por fim, descuidou-se e deixou cair a máscara que construíra. Ela se desgrudava da pele, revelando uma feiúra que Hannalu jamais vira.

Tomada de horror, ela nada disse. Recolheu-se no banheiro branco e catou do chão os estilhaços que lhe caíam das asas.

Na manhã seguinte, Bingano a encontrou deitada sob a cama. Respirava ainda, mas os olhos arregalados estavam vazios e a mente fugitiva.

Chamou-a com carinho. Depois com desespero. Só quando tomou-lhe o corpo nas mãos pôde sentir sua magreza extrema, a pele seca, os cabelos inteiramente brancos e os cotocos das asas pendurados.  Ela ganiu algo e se aquietou para sempre no peito dele, como um cachorro medroso.

Estilhaços

Ao contrário da morte do pai, Bingano não deixou a dor extravasar. Sua culpa era tão avassaladora que já nem pensava. Recolheu os pedaços de vidro das asas de Hannalu e atirou-os na mesma fogueira onde o corpo dela estava quase totalmente consumido. Viu-lhe as carnes e ossos sendo comidos pelas chamas, mastigados pelas labaredas alaranjadas.

Agora só lhe restava a ausência dela. Não havia mais o som da voz, nem a bagunça que o irritava. Não havia mais do que reclamar. Uma saudade e uma dor quase sem nome lhe abriram os braços.

Deu-se conta que sua vida vitoriosa era agora oca, sem significado. Reviu quantas vezes ela se orgulhara dos feitos dele, de suas inesgotáveis habilidades. Quem haveria de aplaudi-lo, abraçá-lo, rir com ele ou dele? Sua platéia morrera. E, ao olhar no jardim, viu que também sumiram as tais flores de esperança.

Foi então que uma sombra sorrateira se esgueirou por trás dele e o cobriu com o manto verde-musgo da solidão. Bingano caminhou até a janela e puxou o ferrolho enferrujado…

Para Chris.

the_eye_of_time_1949Acordei encharcado de Dali, Magritte e Kafka. Vivo duas vidas simultaneamente. Em uma delas, um povo festeja, embriagado por superficialidades, enquanto em outra um país é engolido por uma sucuri gigante, envolvente, que enrola seu corpo gosmento em torno de meus sonhos de ética.

Em uma das vidas, minha casa se incendeia. Grandes línguas de fogo destroem o lugar em que cresci; suas labaredas já consumiram a vizinhança e se aproximam de meu sofá. Em outra, meus amigos inundam minha timeline com receitas de brigadeiro gigante e fotos fofinhas de um mundo sorridente.

Em uma das vidas, minha mente voa livre, plena e poderosa. Na outra, vejo essa mente acostumada a pensar sem amarras acoplada a um corpo pesado, tetraplégico. Leis que eu não aprovo, dirigentes que não elegi, representantes distanciados do que desejo são os donos de meu corpo subjugado pelas regras desse coletivo indesejado.

Curioso, abro uma janela entre as vidas, tento construir uma ponte para uni-las. Em vão. Os amigos que sorriem, inocentes e doces, não enxergam o incêndio, a sucuri, minha angústia e minha mente que luta para se libertar do corpo paralisado.

Penso em soluções drásticas, que jamais implementarei, a fim de fazer os queridos enxergarem a  realidade da outra vida que só eu e alguns poucos percebem. Sonho com um evento cósmico que os acorde para a vida além da Matrix, onde a luz brilhante se converte em fog e cinzas, chuva ácida e ameaças.

Mas o que ouço quando tento? O coro ruidoso dos que me batem nos ombros com ar contristado: “Não se deixe levar pelo pessimismo. Essa outra vida que você enxerga não é tão  ameaçadora. Você usa lentes de aumento”. Colam-me rótulos viscosos: coxinha, reacionário, playboy, direita. Outros acreditam numa força invisível que tudo comanda e está em absoluto controle da imensa roda da vida. Duvido dessa força, até porque o descontrole geral me prova o contrário. O pacto social me esmaga. Estou mais para Lennon que para silly love songs.

Estarei eu errado? Começo a  duvidar de minha percepção. Quererei eu ser cego e feliz? Um dia, cansado desse paradoxo, arrancarei meus olhos e abdicarei de minha capacidade de ver as coisas sem olhos alheios? Até onde irei, equilibrado e solitário, nessa ponte que une dois mundos tão díspares que coexistem?

Talvez eu simplesmente me converta num broche de Dali, em que o olho que chora é cravejado de diamantes e beleza puramente material. Uma joia humana, obviamente muda, talhada para ser desejada e amada mesmo quando despeja no mundo o choro pétreo e brilhante que quase ninguém consegue ver.

(Sonia Zaghetto)

Alberto

albertoAlberto nasceu com asas invisíveis pregadas nas costas. Desde pequeno, o menino pássaro sabia que poderia voar. Sabia tudo de aves. Falcão, gavião, andorinha e beija-flor não tinham segredos para ele. Durante horas observava asas, apreciava vôos e acariciava penas. Há aqui uma ciência – pensava.

Alberto também amava as máquinas. Consertava tudo: máquina de costura, tear e câmera fotográfica. Às escondidas do pai dirigia loucamente a locomotiva que levava o café da fazenda para a cidade.

Em meio a árvores e ninhos, lá vai Alberto sentindo saudade dos céus. Olhava montanhas ao longe, imaginava a copa das árvores vistas de cima, sonhava com nuvens.

– Se até besouro voa, por que eu não posso voar?

– Porque gente não voa, oras.  Pessoas não têm asas! Responde a Maria, doceira de mão cheia, com sua lógica implacável.

– Pura bobagem, pensa Alberto. – É só uma questão de jeito.

Seus olhos de menino acompanham a fumaça que sobe do tacho onde Maria faz a geléia. O rolo esfumaçado escapa em direção ao céu.

– Um dia irei também… Um dia.

Os anos passaram. Um fiapo de barba começou a surgir no rosto de Alberto.

– Meu filho, você agora é rapaz. Vou mandá-lo estudar em Paris. Professores particulares ensinarão a você a rainha das ciências, o futuro da humanidade: a engenharia mecânica, disse o pai, todo sisudo.

O pai nem havia acabado de falar e a mente de Alberto já voava longe. Lembrava daquela tarde de primavera quando viu pela primeira vez um balão. Imenso, cheio de gás, balançava-se suavemente em meio ao parque de exposições. Olhos pregados nas cores incríveis daquele instrumento de voar, Alberto decidiu na hora: aquele era o seu destino.

Brasil foi o nome de seu primeiro balão. Pequenino e valente como o próprio Alberto. De repente, ali estava o céu. Lastro solto, sobe e segue. Mergulha no azul profundo. Afinal, o menino das asas invisíveis estava voando em algo que ele mesmo construíra. Abriu as narinas e sugou todo o ar que podia. Um vento forte revirou os cabelos de Alberto, o balão oscilou perigosamente. Ele sorriu.

– Não importa, estou em casa.

Muitos balões e dirigíveis depois, Alberto tornou-se perito na arte de voar. Já havia desabado sobre as torres do Trocadero e até sobre o jardim bem cuidado do Barão de Rotschild. Enquanto recolhia a lona do balão, após queda espetacular, uma princesa brasileira mandou-lhe uma cesta de frutos e doces. Dentro, um bilhete dizia “Rezo a Nossa Senhora para que lhe proteja, senhor Alberto”.

Numa tarde, foi arrastado pelo vento para o alto mar, em Mônaco. O mar agitado tentava alcançar o cesto do balão com suas garras feitas de onda. Raios e trovões rugiam para assustá-lo. Em vão: andar entre nuvens – mesmo as cinzentas – era o ambiente de Alberto.

Voava diante de reis e plebeus, duques, princesas e mendigos. E agora até ditava moda! Alguém achou incrível o modo como arrumava o chapéu para impedi-lo de ser levado pelo vento. No outro dia, os parisienses copiaram o estilo. O relógio de bolso era desconfortável? Alberto pediu uma adaptação e o atou ao pulso – moda que atravessou os séculos.

Alberto dominou a arte de controlar balões. E os balões – que conheciam as asas invisíveis de Alberto – o obedeciam sempre.

– Quero voar em torno dessa torre. E vou fazer isso com absoluto controle!

Fez!

O Prêmio oferecido por um certo Sr. Deutsch – 100 mil francos – foi distribuído alegremente entre operários e mendigos de Paris. Alberto não queria dinheiro. Para ele, bastava voar.

Até que um dia Alberto decidiu: chega de balões. Algo mais pesado que o ar poderá voar também. Desenhou dia e noite, mergulhou em palavras difíceis como aerodinâmica, deixou fluir a paixão pela velocidade, estudou o segredo dos motores. Construiu algo que era parecido com uma prateleira voadora. Testou, caiu, não funcionou, insistiu.

No outono, a prateleira – que tinha recebido o nome de 14 BIS – foi testada no campo da Bagatelle, em Paris. Alberto pedalou a geringonça, pôs força no embalo e, de repente a invenção, forrada de seda e feita com hastes de bambu, decolou. Voou 200 metros e pousou de novo.

Quem assistia ficou mudo de emoção. Depois daquele silêncio que durou alguns minutos, cartolas e chapéus foram atirados para o alto. Um grito coletivo de alegria escapou do peito da multidão assombrada: “O homem voa!!”. Alberto foi carregado em triunfo. Mocinhas piscavam os olhos para ele, rapazes o invejavam.

Logo, ele abandonou a prateleira voadora e criou um modelo novo. La Demoiselle – a libélula – era um avião-menina. Graciosa e pesando apenas 56 quilos, a Demoiselle flutuava sobre os céus de Paris, com suas asinhas delicadas.

demoiselle-transportingAlberto estava casado, enfim. Encontrara a alma gêmea naquele avião elegante que se tornou modelo para todos os demais aviões do mundo. Saía para passear e levava a Demoiselle no banco de trás do carro, para espanto de toda gente. E, quando queria, pousava-a suavemente no jardim do castelo dos amigos. O avião estacionado à porta era o auge da paixão pela arte de voar.  Paixão tão grande que ele jamais quis cobrar direitos autorais pelo uso da patente: todo homem deveria ter o direito de ter asas – mesmo que artificiais.

No Brasil, Alberto construiu uma casa de pássaro só para ele, empoleirada numa rocha íngreme. Mas algo começava a se partir no seu coração de menino: seu avião às vezes caía. E quando despencava lá do alto matava as pessoas e feria algo muito profundo no peito de Alberto. Ele não suportava a ideia de que pessoas perdessem a vida por causa de sua máquina de voar. Alberto começou a murchar.

Quando as guerras vieram e os aviões despejaram bombas sobre jardins e meninos, Alberto encolheu-se em sua casa encantada. Quando irmãos
passaram a usar seus lindos aviões para matar uns aos outros, a mente de Alberto se escondeu em um lugar muito escuro. Agora poucos se lembravam dele: aviadores mais jovens se destacavam e a invenção do avião foi dada a outros. Alberto não resistiu. Numa tarde de cinzas, abriu as asas invisíveis e partiu sem olhar para trás.

Se olhasse, veria a mim, que sonho com asas invisíveis. A mim, que te abraço nos longos vôos, quando o colchão das nuvens me espreita pela janela do avião. Ou quando ouço o ronco dos jatos da esquadrilha da fumaça e te reverencio, encharcada de orgulho. Ou simplesmente quando um vento sorrateiro me revira os cabelos num dia brilhante de verão e eu abro os braços, fingindo voar sobre ondas e casas, em um balão que divido contigo, meu Alberto.

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