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bouguereau1. FHC – acho ótimo a PF pedir investigação, pois ninguém deve ser poupado. Se a investigação confirmar o que a ex-amante, Mirian Dutra, disse à Folha de SP (que eram recursos dele e não dinheiro público), bom para ele. Se comprovarem que ele cometeu algum crime, que seja punido exemplarmente. Bônus: a) esclarece de vez essa história; b) cai o “mito” de que ninguém investiga os tucanos.
2. Lula – acho ótimo se for investigado, pois ninguém deve ser poupado. Se a investigação confirmar que é a alma mais honesta do país e o sítio, o triplex e a corrupção nada tem a ver com ele e família, bom para ele. Se comprovarem que ele cometeu algum crime, que seja punido exemplarmente. Bônus: a) esclarece de vez essa história; b) cai por terra o “mito” de está com medo de depor ao MPF e tentando obstruir a investigação via liminar no Conselho Nacional do Ministério Público, a campanha difamatória contra Sergio Moro, a pressão sobre o ministro da Justiça para calar a Polícia Federal e agora o habeas corpus do TJSP.

A ilustração? “Dante e Virgílio no inferno”, de William-Adolphe Bouguereau. Uma referência à Divina Comédia. Os poetas assistem à luta de duas almas condenadas no oitavo círculo do inferno, onde estão os que em vida induziram outros a praticar a fraude. Escreveu Dante Alighieri: “O fogo que os atormenta também oculta os conselheiros da fraude, pois o pecado deles foi cometido escondido. E como pecaram com suas línguas, agora a fala só pode passar pela língua da chama furtiva”. Eu só não sabia que Dante era profeta, além de excelente poeta (opa, rimou!). :-) 

vincentSonia Zaghetto

Assisti ao discurso do ex-presidente Lula da forma o mais isenta possível e mente aberta. Obviamente não esperei grandes mudanças, mas imaginei que haveria um pouco de autocontrole como demonstração de inteligência. Aguardei alguma demonstração de contenção, se não por gestão de imagem, mas como medida destinada a não aumentar a grande fogueira dos ódios deste país. Imaginei que, dado o momento inédito em sua vida, manifestaria algum respeito aos milhões de brasileiros cujas mentes não se curvam à retórica barata. Em vão: palavras vazias, em uma fala recheada de clichês e tolices, plena de auto louvação, piadas grosseiras, delírios narcisistas e frases piegas que comoveriam apenas pré-adolescentes ou amigos encharcados de boa vontade.

Houve, ainda, uma revisita a dois clássicos: a velha estratégia vitimista sobre a perseguição movida pelas elites por ser o redentor dos pobres; e o desejo sádico de alimentar um pouco mais o ódio que hoje divide seus compatriotas. Observei-lhe o rosto contorcido, a expressão raivosa, a incapacidade de se reconhecer como cidadão comum, submetido às leis do país. E entendi: Lula hoje acredita piamente na imagem que ele e seus aduladores criaram. Para ele, é inadmissível que seja investigado, ou conduzido a depor: trata-se de falta de respeito. Logo ele, tão grandioso, dotado de tal inteligência que chega a mencionar com desprezo os que dedicam longos anos ao estudo.

Atrás dele, uma multidão aplaudia, mesmerizada. E me veio à memória uma história que se conta sobre Julio Cesar. Ao entrar triunfante em Roma, quase semideus em sua dourada carruagem, trazia consigo um escravo que o prevenia contra os excessos da vaidade, lembrando-o, de tempos em tempos: “Memento mori!” (Lembra-te que és mortal!).

É uma pena que Lula não tenha entre os seus quem o alerte para os excessos intoxicantes da vaidade que cega.

É uma pena que Lula ame apenas a si mesmo e não ao país, transformando uma parte significativa de nossa população em inimigos sobre quem açula seus cães.

É uma pena que ninguém lhe diga, francamente, que o rei está nu – que sua habilidade de comunicação só funciona para dois segmentos: os que se renderam a essa nova forma de fanatismo criada por seu partido; e a parcela da população cuja ausência de educação é louvada como vantagem e não como vergonha.

Despido de riquezas morais, passará à história como fanfarrão histriônico.

Órfão de qualidades éticas, não consegue reconhecer que ultrapassou todos os limites.

Desabituado à reflexão, não vê além dos limites das necessidades básicas.

Embriagado pela bajulação, não consegue ver nas críticas de milhões de brasileiros a advertência severa para seus excessos.
Tudo isso, Lula já havia demonstrado sobejamente em ocasiões anteriores. Hoje apenas reafirmou, em rede nacional, que desconhece o significado da palavra grandeza.

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Sonia Zaghetto

Fôssemos um país decente e toda a nação teria assistido – em silêncio atento e constrangido – ao primeiro dia do julgamento da denúncia contra Eduardo Cunha no STF.

Foi uma amostra da decadência moral que parece permear tudo; uma doença que corrói todas as coisas que toca e que entorpece os espíritos perante essa tragédia brasileira que é a corrupção. Um horror que atinge o governo e quase toda a classe política, alcança a esfera privada e se replica até os confins do país, tornando-se quase banal entre a população, pois está igualmente nas pequenas espertezas e malandragens cotidianas.

No STF se falou não só da já conhecida troca de favores, do roubo despudorado que domina as mais altas esferas do poder na nossa pobre República ou do envolvimento doentio de empresários nas negociatas: vimos, também, instituições religiosas e cidadãos anônimos indiferentes ao descalabro, comparsas dos ilícitos, parceiros do crime nesse grande festival de consciências adormecidas.

Até o fim desta semana, Cunha será transformado em réu e seus pares deveriam cassá-lo sumariamente. Mas a realidade tem outro ritmo, além de ritos a obedecer. Para mim, o desolador desse dia é saber que Cunha é apenas um entre tantos brasileiros que escolheram o caminho do enriquecimento às custas do Estado e do esmagamento progressivo dos compatriotas que morrem diariamente nos hospitais desguarnecidos, frequentam escolas sucateadas e encaram a indignidade de ruas sem saneamento básico e o transporte urbano degradante.

Eu – assim como Diógenes de Sínope, que usava uma lanterna para procurar um homem honesto na antiga Atenas – busco os que ainda não perderam a capacidade de se indignar com o esfacelamento da ética em nosso País.

Vejo, compadecida, nosso povo com a cara enterrada nas telas dos celulares, rindo de piadas tolas, acreditando em marqueteiros manipuladores e refém do carisma de anões morais que nos convenceram de que eram gigantes. Ando tentada a acreditar que a picada do Aedes aegypti anestesia a alma, cega para o óbvio e torna frágeis as convicções morais de uma parte significativa de nossa gente.

Alexandre Zaghetto*

inspire-birdsNa primeira vez em que compareci a uma formatura na UnB não foi na condição de professor. Eu estava aí onde vocês estão. E uma das coisas que mais me chamaram a atenção foi a indiferença dos que não estavam diretamente envolvidos aqui na cerimônia de colação de grau.

Do lado de cá, como hoje, estavam presentes o reitor, coordenadores de curso, chefes de departamento, diretores de instituto, professores, funcionários, etc. Mas isso em nada parecia inspirar qualquer tipo de respeito por parte de parentes e amigos. Não digo respeito pelos títulos em si, mas pelo esforço que aquelas pessoas haviam feito para que a Universidade pudesse permanecer de pé durante o tempo em que os formandos eram apenas alunos de graduação. Essa mesma Universidade que naquele momento estava sintetizando em um diploma anos de dedicação de professores, alunos e funcionários.

Por isso, esta é a primeira reflexão que eu gostaria de fazer hoje. E ela é sobre o respeito e a gratidão.

Treinamento técnico vocês tiveram o suficiente aqui na Universidade, mas são os padrões ético-morais que definem o caráter de uma pessoa. Muitas situações de decisão difícil se apresentarão a vocês e, acreditem, nossa mente é suficientemente astuta para encontrar justificativa para tudo. E decidir pelo que não é correto, quando conveniente, pode tornar-se fácil. Principalmente se o ambiente onde nos encontramos se apresenta com algum grau não desprezível de desorganização, como é o Brasil. E eu estou falando de corrupção no sentido mais amplo da palavra.

Assim, esta segunda reflexão é sobre a firmeza de caráter e a honestidade.

O Brasil apresenta uma série de desafios. E estes desafios só podem ser vencidos se colocarmos nossa criatividade em ação. Mas não a pseudo-criatividade, esta que as vezes é atribuída ao nosso povo e que eu chamo de criativitite.

Pensar fora da caixinha é mais difícil do que parece. Einstein certa vez disse: “Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o gerou”. Por isso, precisamos conduzir nossa criatividade a patamares mais elevados, a “uma atmosfera forte”, como diria Nietzsche.

A geração atual acredita ser toda formada por gênios, bastando apenas ao mundo reconhecer sua genialidade. A verdade, porém, não é essa. Para se enfrentar os problemas graves do Brasil, “é preciso estar preparado para as alturas (…)”, onde “próximo está o gelo” e “atroz é a solidão”. Em outras palavras, o Brasil pode ter seus problemas minimizados, mas apenas se dedicarmos o tempo necessário subindo ao cume da montanha de onde poderemos respirar o ar rarefeito das alturas e a partir de onde teremos condições de vislumbrar as soluções necessárias.

A terceira reflexão, então, é sobre o esforço e a dedicação.

Se destinarmos algum tempo combatendo em nós mesmos qualquer tendência à alienação, perceberemos que há coisas que exigem mudança imediata. Brasília é a unidade federativa com o maior PIB per capita, o menor índice de analfabetismo, a maior expectativa de vida e o maior índice de desenvolvimento humano do Brasil. Além disso, a UnB está entre as 10 melhores universidades do Brasil. Considerando que a solução para um problema significativo deva ser apresentada, de quem vocês acham que essa solução teria mais condições de surgir?

E isso é refletir sobre a responsabilidade, a habilidade de estar pronto para responder a uma demanda.

A Índia esteve por um longo tempo sob o domínio colonial do Império Britânico. Durante esse período, os indianos foram até mesmo proibidos de extrair sal em seu próprio país. Numa manifestação que ficou conhecida como a Marcha do Sal, Mahatma Gandhi, o grande responsável pela independência da Índia, caminhou pacificamente por 400 km durante 25 dias em direção ao litoral e mostrou aos milhares que o seguiram como fazer sal, desobedecendo às leis impostas pelos ingleses.

Observei com certa atenção as manifestações recentes dos estudantes em São Paulo contra a reorganização da rede escolar estadual. Fiquei me questionando o que será que teria acontecido se as manifestações se resumissem ao não comparecimento absoluto às aulas em vez de invasões, bloqueio de vias e confronto com a polícia?

Manifestações pacíficas, ponto que acabamos de evidenciar nessa quinta reflexão, não são necessariamente desfiles de carnaval fora de época. Elas podem ser inteligentes.

Em 2011 o mundo testemunhou um acidente nuclear em Fukushima, no Japão. Eu assisti, sem acreditar no que estava vendo, a um grupo de Engenheiros idosos, aposentados, na faixa dos 70 anos de idade, oferecendo-se para conter o vazamento na usina, assumindo o lugar dos mais jovens.

Esta sexta reflexão é sobre o sacrifício.

Em 2 de outubro de 1884, Vincent Van Gogh escreveu em uma carta a seu irmão Theo: “Eu prefiro morrer de paixão do que de tédio”. A paixão pode fazer do Engenheiro um artista, elevando a tarefa mecânica à categoria de obra de arte. A paixão faz do apaixonado alguém que se destaca em meio à multidão.

Viver de forma apaixonada é a sétima reflexão.

Oscar Wilde certa vez disse: “Não sou jovem o bastante para saber tudo”. Possivelmente estava se referindo à pressa com que via de regra muitos jovens julgam, sem a devida atenção, as situações que se lhes apresentam. Quando perguntamos a alguém “por que um objeto cai em direção à Terra”, a resposta que está na ponta da língua é emitida com indiferença e sem qualquer maravilhamento: “Por causa da gravidade”. É verdade. Mas o que é a gravidade?

É necessário observar com eterna inquietude e espírito investigativo cada fenômeno ao nosso redor. Dizem para NUNCA utilizarmos palavras como TUDO ou NADA. Mas já que essa própria regra faz uso da palavra NUNCA, ouso dizer que NADA no Universo deve tornar-se banal aos nossos olhos.

Sendo assim, a oitava e última reflexão é sobre a inquietude científica.

Eu tenho um desejo muito grande de ver as coisas melhorarem para todos nós.

Vocês podem dizer que eu sou um idealista, mas acreditem, eu não sou.

Assim, por tudo isso que foi dito, a última tarefa que eu peço como professor é: façam o diploma de vocês valer.

Obrigado e parabéns a todos.

  • Prof. Dr. Alexandre Zaghetto, professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Brasília.  Discurso proferido no dia 19/02/2016 na cerimônia de formatura dos alunos de Engenharia Elétrica, Mecatrônica, de Computação, Mecânica e de Redes da Universidade de Brasília.

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Para Jamile, ela mesma um raio de sol

 

O dia surge cinza, pálido e meio sujo de sangue. Da tela encharcada de vermelho, emerge fumaça e desesperança. Um mundo que desaba, engolido por selfies e selfish. Poucos livros, muitos posts. E Robin Williams foi mais um a desistir. Sinto-me como Maiakovski olhando, com ar de apatia, para a parede onde o deprimido Serguei Iessenin escreveu, com o próprio sangue, seu poema de despedida, antes de se suicidar (como se diz hoje em dia e bem eufemisticamente) por asfixia, no Hotel Angleterre.

 

 

Até logo, até logo, companheiro,

Guardo-te no meu peito e te asseguro:

O nosso afastamento passageiro

É sinal de um encontro no futuro.

Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.

Não faças um sobrolho pensativo.

Se morrer, nesta vida, não é novo,

Tampouco há novidade em estar vivo.

 

Imagino Maiakovski diante do poema-testamento. A resposta vindo entre o amargor, a raiva e a impotência, entremeadas com algum humor tímido no Poema da Noite, em tradução de Haroldo de Campos. Tentativa trêmula de responder aos que criticaram o suicídio do amigo usando a sempre atual prática de julgar a vida alheia com parâmetros superficiais e tolos.

Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.
Vácuo … Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool, nem dinheiro.
Sóbrio, vôo sem fundo.
Não Iesiênin,
não posso fazer troça,
Na boca uma lasca amarga
– não a mofa.
“É o vinho”, a critica esbraveja,
“se trocasse a bebida pela classe,
ela lhe daria um norte”.  E a classe,
por acaso,
mata a sede com xarope?
Melhor morrer de vodka que de tédio.
Talvez,
se houvesse tinta no Inglaterra
você não cortaria os pulsos.
Os plagiários felizes pedem bis!
Já todo um pelotão em auto-execuçaõ!
Para que aumentar
o rol dos suicidas?
Antes aumentar a produção de tinta!
Por enquanto há escória de sobra.
O tempo é escasso
– mãos à obra!
Primeiro é preciso transformar a vida,
para cantá-la em seguida.
Os tempos
estão duros para o artista.
Mas dizei-me, anêmicos e anões,
os grandes,
onde, em que ocasiões,
escolheram uma estrada batida ?
Para o júbilo o planeta está imaturo,
é preciso arrancar alegria ao futuro.
Nesta vida,
morrer não é difícil,
difícil é a vida e seu ofício.

Ah, Maiakovski, só temo que daqui a cinco anos seja eu a igualmente desistir. Acho que não. Talvez eu me vá naturalmente, num dia de sol, apenas por estar cansada de manter os olhos abertos.  Mas, por ora, apesar do desânimo momentâneo, ainda recolho – aqui e ali – raios de sol que atravessam a bruma e trazem luz aos olhos. Como ouvir Ravi Shankar e George Harrison tocando cítara juntos.

Ainda há livros, poemas, música e esperança.

painfulQuerido M.A.,

escrevo-te esta missiva usando a  segunda pessoa do singular, pois acredito que já são poucos os que, no Brasil, usam adequadamente o pronome tu, que tem um ar de tempos passados, senhoriais. Peço-te que releves tal intimidade, dado o nosso longo tempo de convivência. Também é necessário que entendas que escolhi tal forma de tratamento e outros recursos da escrita dos tempos antigos pois assim tenho mais chances de que um possível violador de correspondências nada compreenda do que vou te narrar. Esta carta  é secreta e assim deve permanecer. Explicar-te-ei agora porque corro sérios riscos ao me ligar a ti.

O objetivo desta é informar-te que a tristeza ultimamente tem me consumido a alma. E é por tua causa que meu coração chora. Aqui, na terra onde nascemos – eu e tu – há uma nova moda: a facilidade instantânea e a todo custo. Por causa dela instituiu-se uma lei que agora rege a vida de boa parte de nossos compatriotas: a que determina que todo esforço intelectual é crime. Estender a mão em direção a um dicionário cansa sobremaneira os meus contemporâneos. Ler um livro como os teus tornou-se tarefa hercúlea. Entender tuas palavras exige demais das novas gerações.

Assim, querido amigo, é com com extremo pesar que te informo que és persona non grata em muitos círculos. Teus enormes parágrafos, repletos de ironia, metáforas e assemelhados, sobrecarregam os jovens cérebros treinados para tuitar (algo mais ou menos como um exercício permanente de elaborar de forma banal aquele micro conto do Hemingway, sendo que em vez de contar uma história densa, informa-se apenas o óbvio de um cotidiano que a ninguém interessa).

Pesa-me, sobremaneira, informar-te que estás ultrapassado em todos os aspectos. Usas pontuação corretamente, escolhes palavras rebuscadas, constróis parágrafos longos (com apostos, ó criminoso!). Por essas e outras, o zeloso Estado brasileiro, atento às necessidades dos estudantes brasileiros, financia uma brilhante intelectual que reescreverá, em linguagem moderna e acessível, estes teus textos ininteligíveis e bizarros. E dá-te, por feliz: muito pior ocorreu com o Lobato e  Twain, pouco tempo atrás!

Usas expressões como sagaz, quiçá ou gárrula! Que queres com isto? Causar um trauma nas jovens mentes preparadas apenas para postar after sex selfies? Um dia eu te explico do que se trata, mas não agora: és um senhor do século dezenove e não estás pronto para saber detalhes sobre como a exibição da intimidade em altas vozes e – literalmente – para o planeta inteiro tornou-se uma das marcas desse novo tempo.

Já não tens mais lugar neste país, onde aquela bela flor do Lácio jaz ressecada, sepultada em um cemitério denominado de “Redes Sociais”.

Assim, caro amigo, esta missiva serve para te informar de que nossa amizade, a partir de hoje, será secreta. Guardo-te ainda, em estremecimentos d´alma, mas já não posso correr o risco de ser excluída da sociedade por tua causa. Dizer publicamente que te amo seria suicídio: os estultos julgar-me-iam  pretensiosa, esnobe e boçal; eu perderia amizades, desgostosas com meu desrespeito às correntes formas de expressão que tudo permitem, inclusive o assassinato da gramática (psiu, falemos baixo: isso agora é palavrão).

Certa estou que não me queres no ostracismo. Sei que desejas o meu bem. Assim, despeço-me de ti, mas antes lego-te uma lista de palavras que deves banir de teus livros. Estão organizadas em ordem alfabética a fim de combinar com a facilidade que é a tônica da Era dos Obtusos, que é como denomino os tempos atuais.

Sê feliz em tua estante empoeirada.

Sempre tua,

Soninha

Index 

A de alforria, abacamartado, alcova, arcádia, albardeiro, arcaísmos, alienista

B de bacamarte, bufão,  botica, broquel

C de crisálidas, casmurro, coxia, cáspite, Carola, Catete, Cosme Velho, cambraia, chilra e carpideiras

D de desenlace, derradeira, disparate, dadival, Dante

E de escritor, escrivão, êmulo, espúrio, erudito, estupefato e epístola

F de falenas, farfalhar, falaço, fúlvido, furtadelas e folgazão

G de garrida, gárrula, gasconada, gongorismo

H de hombridade, homérico, homúnculo

I de ironia, inexorabilidade, imarcescíveis, imprecação

J de jazigo, jimbo, jubiloso

L de literatura, livros, leitura, luminescência, longanimidade, laborioso

M de marmota, miliciano, memórias, manuscritos, míngua, mantilha, mulato, metáfora, mofino

N de niilismo, negligenciado, nosocômio

O de ostracismo, olvido, obreia, óbolo

P de póstumas, petalógica, periódicos, patranha, pusilânime, Platão, páginas, poesia e pastiche

Q de quiçá, queixada, quejando, queixume

R de relíquias, rotundo,

S de sagaz, sequazes, sátira, Schopenhauer, senhorinhas

T de tipógrafo, traslado, taciturno, tertúlias

U de úlcera, ufanista, ulterior, úbere

V de vivenda, versejar, vertiginoso, vestidura, véu, vigília, Virgílio, vate

X de xalma, xeleléu, xendengue

Z de zagunchada, zagaia, zambaio e zambaneira

 

ΛΙΘΟΣ

vincentghetto

J’me sens palote,
Je me sens lote
Les enfants me nettoient
Des inconnus me sortent
A croire quand je me vois
Que je suis déjà morte

(Zaz, Si Je Perds) 

Se você acorda e sua sanidade escorre entre os dedos; se sua alma se debate entre tormentos e delírios, o que devo dizer? Qual a palavra exata para restaurar o que se perdeu?

Entre papéis e rotina, o dia me surpreende investigando em que canto escuro você escondeu o que me sempre foi familiar e seguro. O gemido fere meus ouvidos, a cabeça sob o travesseiro consome o que me resta de esperança e me encolho de medo do seu monstro interno que vejo me espreitar, implacável. O que é esse grito lancinante que atravessa as paredes e me rouba a luz? E os ossos que querem se despregar da carne? Não, não desista ainda.

Mãos torcidas, longas horas de sono, dor de viver, cansaço de vestir essa carcaça que oprime. Não fuja, não. Eu ainda estou aqui. Fixada nos seus olhos afogados investigo o que de você resta sob esses escombros. Não desista.

Inquieta mente que cria abismos, traiçoeira mente que entre delírios e tintas se locupleta em sensações de prazer e dor, desespero e ardência. Uma fome infinita de sentir, de preencher a  lacuna onipresente. Há algo de voraz em você; algo de devorador, que estende seus dentes pontiagudos para o nosso cotidiano. Tenho medo, sabe, mas ainda estou aqui, segurando a sua mão que treme.

Em  meio a essa tragédia surge a centelha intensa, a vontade insana, a obsessão violenta. Febre e volúpia, desejos, ardência e alucinação – leio tudo isso na sua alma inquieta. Dê-me as tintas, os pincéis e as telas! Estendo os pincéis quase em pânico, temerosa da avalanche, da raiva mal contida e do fluxo que arrebata. Mas não me afasto. Estou aqui. Ainda.

Três prótons e três elétrons embalados em um cobertor prateado entram por sua boca, acumulam-se lentamente no seu sangue e estabilizam o que extrapolou a linha fina do que se chama razão. Eu espero. Tenha paciência: estou aqui.

Mergulho nessa turbulência assustadora e seguro suas mãos contra meu rosto. Estou aqui: fique mais um pouco.

Os dias se acumulam e estou tão cansada. De todas as expectativas só me resta uma: a que talvez este sonho mau um dia chegue ao fim e você, afinal, possa emergir para o sol. Neste dia, entre os dourados sons de meu amor, naquele lugar incrível que sonhamos, haverá calma, suavidade, serenidade e meu coração que aguarda, ansioso, pela hora em que afinal poderemos de novo olhar nos olhos um do outro. Sem sombras, sem medo.

Estou aqui. Não vá ainda.

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